Chapter D: Francisco Manuel De Melo (1)
[Sidenote: 1608-1666]
_153. Soneto_
Quantas vezes conheço o meu cuidado
e contemplo na duvida que o espera,
tantas e muitas mais dele quisera
antes ser despedido que enganado.
Torno a cuidar depois que inda apartado
quem me assegura a mi que o estivera,
se para sempre amar sempre é uma era,
para sempre temer sempre um estado?
Ja propos de passar o mundo a esmo
pois no tempo, lugar, fe, gosto e morte
a fraude é certa e nunca conhecida.
Vos que sabeis de mi mais do que eu mesmo
ensinai-me a viver com minha sorte,
fareis de todo vossas sorte e vida.
_154. Responde a um amigo que mandava preguntar a vida que fazia na sua prisão._
Casinha despresivel, mal forrada,
treva lá dentro mais que inferno escura,
porta só para entrar, logo fechada,
cama que é potro, mesa destroncada,
pulga que por picar faz matadura,
cão só para agourar, rato que fura,
candea nem com os dedos atiçada;
grilhão que vos asusta eternamente,
negro boçal e mais boçal ratinho,
que mais vos leva que vos traz da praça;
sem amor, sem amigo, sem parente;
quem mais se doi de vos diz: Coitadinho!
Tal vida levo: santo prol me faça!
SOROR MARIA DO CEO
[Sidenote: 1658-1753?]
_155. Dorotea a Teofilo_
D. Adonde vas, o Filo sem ventura,
dize, por este campo descuidado?
T. Vou por aí a zombar de teu cuidado
quando te vejo nessa prisão dura.
D. Ó praza a Deus te piques entre as flores
porque saibas quais são os meus amores.
Adonde vas, pastor sem mais sentido
que o de não ser amante nem amado?
T. A ser na liberdade bem ganhado
só por não ser nas flores bem perdido.
D. Ó praza a Deus que aches entre as rosas
flores ferinas, setas amorosas.
Adonde vas, me dize, e sabe antes
que te murmura aquela fonte pura.
T. Vou a não ter mais fe nesta verdura
que a que ensinam as rosas inconstantes.
D. Ó praza a Deus te digam as boninas
os misterios da fe por rosas trinas.
Adonde vas, pastor sem lealdade,
como quem seu delito não recea?
T. Ao som que me faz uma cadea
vou a cantar de minha liberdade.
D. Ó praza a Deus, pois ouço tal despreso,
que nas silvas das rosas fiques preso.
Adonde vas sem afeição de vida
quando um a vida quer para o que ama?
T. Vou por aí donde a sorte me chama,
a querer só a vida para a vida.
D. Ó praza a Deus te encontre o lobo forte,
dando-te á dura vida doce morte.
Adonde vas, se estrelas superiores
a amar te chamam pelas flores belas?
T. Vou só por desmentir essas estrelas
a pisar vingativo nessas flores.
D. Ó praza a Deus que aches nelas certo
não o aspid dormido, amor desperto!
DOMINGOS DOS REIS QUITA
[Sidenote: 1728-1770]
_156. Á destruição dos templos de Lisboa pelo terremoto_
Por castigar, Senhor, nossos insultos,
os gloriosos templos destruiste:
como a tam grande estrago reduziste
dos proprios santos os sagrados vultos?
Que é isto, imenso Deus, deixas sem cultos
a hostia em que teu puro corpo existe?
Mas o que em nossas culpas só consiste
a causa de segredos tam ocultos!
Para milhor ficarmos advertidos
de nossos atrocissimos pecados
deixaste teus altares destruidos,
pois quisestes, por ver-nos castigados
antes vê-los a cinzas reduzidos
que por nossas ofesas profanados.
ANTONIO DINIZ DA CRUZ E SILVA
[Sidenote: 1731-1799]
_157. Flores tam lindas_
Em seus cabelos
negras violas
tem o meu bem:
nas mãos pequenas
tem azucenas
e lirios cem.
Flores tam lindas
Abril não tem.
Em sua boca
vermelhos cravos
abrir se vem:
purpureas rosas
tem nas formosas
faces tambem.
Flores tam lindas
Abril não tem.
No niveo seo
ó que de flores
brotando vem!
Brancos jasmins,
mil mogorins,
lirios tambem.
Tam lindas flores
Abril não tem.
Flores tam frescas
ó quem colhera!
ó ceos, ó quem!
Mas mil amores
tam frescas flores
em guarda tem.
Quem as colhera!
ó ceos, ó quem!
JOÃO XAVIER DE MATTOS
[Sidenote: † 1789]
_158. Soneto_
Pos-se o sol: como ja na sombra fea
do dia pouco a pouco a luz desmaia!
E a parda mão da noite, antes que caia,
de grossas nuvens todo o ar semea.
Apenas ja diviso a minha aldea,
ja do cipreste não distingo a faia.
Tudo em silencio está: só la da praia
se ouvem quebrar as ondas pela area.
Com a mão na face a vista ao ceo levanto,
e cheo de mortal melancolia
nos tristes olhos mal sustento o pranto:
e se inda algum alivio ter podia
era ver esta noite durar tanto
que nunca mais amanhecesse o dia!
PEDRO ANTONIO CORRÊA GARÇÃO
[Sidenote: 1724-1772]
_159. Cantata_
Ja no roxo Oriente branqueando
as prenhes velas da troiana frota
entre as vagas azues do mar dourado
sobre as azas dos ventos se escondiam.
A miserrima Dido
pelos paços reais vaga ululando:
com os turvos olhos inda em vão procura
o fugitivo Eneas,
só ermas ruas, só desertas praças
a recente Cartago lhe apresenta;
com medonho fragor na praia nua
fremem de noite as solitarias ondas,
e nas douradas grimpas
das cupolas soberbas
piam nocturnas agoureiras aves.
Do marmoreo sepulcro
atonita imagina
que mil vezes ouviu as frias cinzas
do defunto Sicheo com debeis vozes
suspirando chamar: Elisa! Elisa!
D’ Orco aos tremendos numens
sacrificios prepara,
mas viu esmorecida
em torno dos thuricremos altares
negra escuma ferver nas ricas taças,
e o derramado vinho
em pelagos de sangue converter-se.
Frenetica delira,
palido o rosto lindo,
a madeixa sutil desentrançada;
ja com tremulo pe entra sem tino
no ditoso aposento
onde do infido amante
ouviu enternecida
maguados suspiros, brandas queixas.
Ali as crueis Parcas lhe mostraram
as iliacas roupas que pendentes
do talamo dourado descobriam
o lustroso pavez, a teucra espada.
Com a convulsa mão subito arranca
a lamina fulgente da bainha
e sobre o duro ferro penetrante
arroja o tenro cristalino peito;
e em borbotões de espuma murmurando
o quente sangue da ferida salta,
de roxas espadanas rociadas
tremem da sala as doricas colunas.
Tres vezes tenta erguer-se,
tres vezes desmaiada sobre o leito
o corpo revolvendo, ao ceo levanta
os macerados olhos.
Depois, atenta na lustrosa malha
do profugo dardanio,
estas ultimas vozes repetia,
e os lastimosos lugubres acentos
pelas aureas abobadas voando
longo tempo depois gemer se ouviram:
Doces despojos
tam bem logrados
dos olhos meus,
em quanto os fados,
em quanto Deus
o consentiam:
da triste Dido
a alma aceitai,
destes cuidados
me libertai!
Dido infelice
assaz viveu:
de alta Cartago
o muro ergueu.
Agora nua
ja de Caronte
a sombra sua
na barca fea
de Flegetonte
a negra vea
surcando vai!
NICOLAU TOLENTINO DE ALMEIDA
[Sidenote: 1741-1811]
_160. Os toucados altos_
Chaves na mão, melena desgrenhada,
batendo o pe na casa, a mãi ordena
que o furtado colchão, fofo e de pana,
a filha o ponha ali ou a criada.
Á filha, moça esbelta e aperaltada,
lhe diz com a doce voz que o ar serena:
Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena!
Olhe não fique a casa arruinada!
Tu respondes-me assim? Tu zombas de isto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado
ja a mãi não tem mãos? E dizendo isto
arremete-lhe á cara e ao penteado;
eis senão quando, caso nunca visto,
sai-lhe o colchão de dentro do toucado!
_161. Deitando um cavalo á margem_
Vai, misero cavalo lazarento,
pastar longas campinas livremente!
Não percas tempo em quanto t’ o consente
de magros cães faminto ajuntamento.
Esta sela, teu unico ornamento,
para sinal de minha dor vehemente,
de torto prego ficará pendente,
despojo inutil do inconstante vento.
Morre em paz! Que em havendo algum dinheiro
hei de mandar em honra de teu nome
abrir em negra pedra este letreiro:
Aqui piedoso entulho os ossos come
do mais fiel, mais rapido sendeiro,
que fora eterno a não morrer de fome.
MANUEL MARIA DE BARBOSA DU BOCAGE
[Sidenote: 1765-1805]
_162. Á lamentavel catastrofe de D. Inés de Castro_
Da triste, bela Inés inda os clamores
andas, echo chorosa, repetindo;
inda aos piedosos ceos andas pedindo
justiça contra os impios matadores;
ouvem-se ainda na Fonte dos Amores
de quando em quando as naiades carpindo;
e o Mondego, no caso reflectindo,
rompe irado as barreiras, alaga as flores;
inda altos hinos o universo entoa
a Pedro, que da morta formosura
convosco, amores, ao sepulcro voa.
Milagre de beleza e de ternura!
Abre, dece, olha, geme, abraça e coroa
a malfadada Inés na sepultura.
_163. Despedidas ao Tejo_
Não mais, Ó Tejo meu formoso e brando,
á margem fertil de gentis verdores,
terás d’ alta Ulissea um dos cantores
suspiros no aureo metro modulando:
rindo não mais verá, não mais brincando
por entre as ninfas e por entre as flores
o coro divinal de nus amores,
dos zefiros azuis o afavel bando.
Com a frente ja sem mirto e ja sem louro
o arrebata de rojo a mão da sorte
ao clima salutar e á margem de ouro:
ei-lo em fraguas de horror, sem luz, sem norte;
soa de aqui, de ali piado agouro:
sois vos, desterro eterno, ermos da morte!
_164. Contraste entre a vida campestre e a das cidades_
Nos campos o vilão sem sustos passa,
inquieto na corte o nobre mora:
o que é ser infeliz aquele ignora,
este encontra nas pompas a desgraça;
aquele canta e ri, não se embaraça
com essas cousas vans que o mundo adora,
este, ó cega ambição, mil vezes chora
porque não acha bem que o satisfaça;
aquele dorme em paz no chão deitado,
este no eburneo leito precioso
nutre, exaspera velador cuidado,
triste, sai do palacio majestuoso:
se has de ser cortesão e desgraçado
antes ser camponez e venturoso!
_165. Á decadencia do imperio portugués na Asia_
Por terra jaz o emporio do Oriente
que do rigido Afonso o ferro, o raio
ao gram filho ganhou do gram sabaio,
envergonhando o deus armipotente;
Caiu Goa, terror antigamente
do naire vão, do perfido malaio,
de barbaras nações! Ah que desmaio
apaga o marcio ardor da lusa gente?
Ó seculos de herois! Dias de gloria!
Varões excelsos que a pesar da morte
viveis na tradição, viveis na historia!
Albuquerque terrivel, Castro forte,
Meneses, e outros mil, vossa memoria
vinga as injurias que nos faz a sorte.
_166. Contrição_
Meu ser evaporei na lide insana
do tropel das paixões que me arrastava:
Ah cego, eu cria; ah misero, eu sonhava
em mim quasi imortal a essencia humana!
De que inumeros sois a mente ufana
existencia falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe natureza escrava
ao mal que a vida em sua orgia dana:
prazeres, socios meus e meus tiranos,
esta alma que sedenta em si não coube,
no abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus! Ó Deus! Quando a morte á luz me roube,
ganhe um momento o que perderam anos:
saiba morrer o que viver não soube!
JOÃO BAPTISTA, VISCONDE DE ALMEIDA GARRETT
[Sidenote: 1799-1854]
_167. Não es tu_
Era assim: tinha esse olhar,
a mesma graça, o mesmo ar;
corava da mesma cor
aquela visão que eu vi
quando eu sonhava de amor,
quando em sonhos me perdi.
Toda assim: o porte altivo,
o semblante pensativo,
e uma suave tristeza
que por toda ela decia
como um veo que lhe envolvia,
que lhe adoçava a beleza.
Era assim: o seu falar,
ingenuo e quasi vulgar,
tinha o poder da razão
que penetra, não seduz;
não era fogo, era luz
que mandava ao coração.
Nos olhos tinha esse lume,
o seo o mesmo perfume,
um cheiro a rosas celestes,
rosas brancas, puras, finas,
viçosas como boninas,
singelas sem ser agrestes.
Mas não es tu, ai não es:
toda a ilusão se desfez.
Não es aquela visão que eu vi,
não es a mesma visão,
que essa tinha coração;
tinha, que eu bem lh’ o senti!
_168. Os cinco sentidos_
São belas, bem o sei, essas estrelas,
mil cores divinais tem essas flores:
mas eu não tenho, amor, olhos para elas;
em toda a natureza
não vejo outra beleza
senão a ti, a ti!
Divina, ai sim! será a voz que afina
saudosa na ramagem densa, umbrosa;
será: mas eu do rouxinol que trina
não ouço a melodia
nem sinto outra harmonia
senão a ti, a ti!
Respira na aura que entre as flores gira
celeste incenso de perfume agreste;
sei, não sinto: minha alma não aspira
não percebe, não toma
senão o doce aroma
que vem de ti, de ti!
Formosos são os pomos saborosos,
é um mimo de nectar o racimo;
c cu tenho fome e sede, sequiosos,
famintos meus desejos
estam, mas é de beijos
e só de ti, de ti!
Macia deve a relva luzidia
do leito ser por certo em que me deito:
mas quem ao pe de ti, quem poderia
sentir outras caricias,
tocar noutras delicias
senão em ti, em ti!
A ti, ai a ti só os meus sentidos,
todos num confundidos,
sentem, ouvem, respiram,
em ti, por ti deliram,
em ti a minha sorte,
a minha vida em ti,
e quando venha a morte
será morrer por ti!
_169. O Destino_
Quem disse á estrela o caminho
que ela ha de seguir no ceo?
A fabricar o seu ninho
como é que a ave aprendeu?
Quem diz á planta: Florece,
e ao mudo verme que tece
sua mortalha de seda
os fios quem lh’ os enreda?
Ensinou alguem á abelha
que no prado anda a zumbir
se á flor branca ou se á vermelha
o seu mel ha de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
teus olhos a minha vida,
teu amor todo o meu bem,
ai, não m’ o disse ninguem.
Como a abelha corre ao prado,
como no ceo gira a estrela,
como a todo o ente o seu fado
por instinto se revela,
eu no teu seo divino
vim cumprir meu destino;
vim, que em ti só sei viver,
só por ti posso morrer.
_170. Ignoto Deo_
Creio em ti, Deus, a fe viva
de minha alma a ti se eleva;
es—o que es não sei: deriva
meu ser do teu, luz e treva
em que indistintas se envolve
este espirito agitado,
de ti vem, a ti devolve.
O nada, a que foi roubado
pelo sopro criador,
tudo o mais o ha de tragar:
só vive de eterno ardor
o que está sempre a aspirar
ao infinito de onde veio.
Beleza es tu, luz es tu,
verdade es tu só. Não creio
senão em ti. O olho nu
do homem não ve na terra
mais que a duvida, a incerteza,
a forma que engana e erra:
essencia, a real beleza,
o puro amor, o prazer
que não fatiga e não gasta
só por ti os pode ver
o que inspirado se afasta,
ignoto Deus, das ronceiras
vulgares turbas, despidos
das cousas vans e grosseiras,
sua alma, razão, sentidos,
a ti se dão, em ti vida
e por ti vida tem. Eu consagrado
a teu altar me prostro e a combatida
existencia aqui ponho, aqui votado
fica este livro, confessão sincera
da alma que em ti voou e em ti só espera.
_171. Cascaes_
Acabava ali a terra
nos derradeiros rochedos,
a deserta, arida serra
por entre os negros penedos
só deixa viver mesquinha
triste pinheiro maninho.
E os ventos despregados
sopravam rijos na rama,
e os ceos turvios, anuviados,
o mar que incessante brama:
tudo ali era braveza
da selvagem natureza.
Aí na quebra do monte,
entre uns juncos mal medrados
seco o rio, seca a fonte,
ervas e matos queimados,
aí nessa bruta serra,
aí foi um ceo na terra.
Ali sós no mundo, sós,
santo Deus! como vivemos!
Como eramos tudo nos
e de nada mais soubemos!
Como nos folgava a vida,
de tudo o mais esquecida!
Que longos beijos sem fim!
Que falar dos olhos mudo!
Como ela vivia em mim!
Como eu tinha nela tudo,
minha alma em sua razão,
meu sangue em seu coração!
Os anjos aqueles dias
contaram na eternidade
que essas horas fugidias,
seculos na intensidade,
por milenios marca Deus
quando os dá aos que são seus.
Ai sim! foi a tragos largos,
longos, fundos que a bebi,
do prazer a taça: amargos,
depois, depois os senti,
os travos que ela deixou,
mas como eu ninguem gosou.
Ninguem, que é preciso amar
como eu amei, ser amado
como eu fui, dar e tomar
do outro ser a quem se ha dado
toda a razão, toda a vida
que em nos se anula perdida.
Ai, ai, que pesados anos
tardios depois vieram!
Ó que fatais desenganos
ramo a ramo a desfizeram,
a minha choça na serra,
lá onde se acaba a terra.
Se o visse—não quero vê-lo,
aquele sitio encantado:
certo estou não conhecê-lo,
tam outro estará mudado,
mudado como eu, como ela
que a vejo sem conhecê-la.
Inda ali acaba a terra,
mas ja o ceo não começa,
que aquela visão da serra
sumiu-se na treva espessa,
e deixou nua a tristeza
d’ essa agreste natureza.
ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
[Sidenote: 1800-1875]
_172. A Fonte dos Amores_
Fonte mais pura que o lustroso vidro,
mais que o vivo cristal que as rochas veste,
ó de inocentes miseros amores
outr’ ora testemunha,
Com que verso que iguale o que mereces
cantarei dignamente as aguas tuas
e a relva que te borda a fresca terra
e as flores que a matizam?
Em que verso milhor folgas que entoe
digno louvor ás arvores anosas
que te cercam beneficas, lançando
amiga sombra aos vates?
Se outras cordas minha lira ornasse
de Maia o filho, o aligero Mercurio,
se novos sons na minha voz creassem
as ondas de Aganippe,
entam celebraria os nobres seixos
onde o sangue de Inés o tempo adora,
onde o sangue de Inés inda hoje arranca
o pranto a amor e ás ninfas.
Os zefiros e as auras neste sitio,
sem que os ais da infeliz jamais esqueçam,
tristes movendo a tremula folhagem
saudade doce avivam.
As aguas tuas e as visinhas letras,
sobre as quais cada dia amor suspira,
o sangue inda recente, os velhos troncos,
tudo te faz formosa.
Corre, ó fonte das lagrimas, ah sempre
aos ternos corações de amantes tristes
corras grata e suave e tenhas d’ eles
os cultos que te sagro!
ALEXANDRE HERCULANO E ARAUJO
[Sidenote: 1810-1877]
_173. A Cruz Mutilada_
Amo-te, ó cruz, no vertice firmada
de esplendidas igrejas;
amo-te quando á noite, sobre o campo,
junto ao cipreste alvejas;
amo-te sobre o altar, onde entre incensos
as preces te rodeam;
amo-te quando em prestito festivo
as multidões te hasteam;
amo-te erguido no cruzeiro antigo,
no adro do presbiterio;
quando o morto, impressa no ataude,
guias ao cemiterio;
amo-te, ó cruz, até quando no vale
negrejas triste e só,
nuncia do crime a que deveu a terra
do assassinado o pó;
porem quando mais te amo,
ó cruz do meu Senhor,
é se te encontro á tarde
antes de o sol se pôr,
na clareira da serra
que o arvoredo assombra,
quando á luz que fenece
se estira a tua sombra,
e o dia ultimos raios
com o luar mistura,
e o seu hino da tarde
o pinheiral murmura.
E eu te encontrei num alcantil agreste
meo quebrada, ó cruz. Sósinha estavas,
ao pôr do sol e ao elevar-se a lua
detras do calvo serro. A soledade
não te póde valer contra a mão impia
que te feriu sem dó. As linhas puras
de teu perfil, falhadas, tortuosas,
ó mutilada cruz, falam de um crime,
sacrilegio brutal e ao impio inutil!
A tua sombra estampa-se no solo
como a sombra de antigo monumento
que o tempo quasi derrocou truncado.
No pedestal musgoso, em que te ergueram
nossos avós, eu me assentei. Ao longe
do presbiterio rustico mandava
o sino os simples sons pelas quebradas
da cordilheira, anunciando o instante
da _Ave Maria_, da oração singela
mas solene, mas santa, em que a voz do homem
se mistura nos canticos saudosos
que a natureza envia ao ceo no extremo
raio do sol, passando fugitivo
na tangente deste orbe, ao qual trouxeste
liberdade e progresso e que te paga
com a injuria e o desprezo e que te inveja
até na solidão o esquecimento!
Foi da ciencia incredula secterio
acaso, ó cruz da serra, o que na face
afrontas te gravou com mão profana?
Não! Foi o homem do povo, a quem consolo
na miseria e na dor constante has sido
por bem dezoito seculos: foi esse
por cujo amor surgias qual remorso
nos sonhos do abastado ou do tirano,
bradando esmola a um, piedade ao outro.
Ó cruz, se desde Golgota não foras
simbolo eterno de uma crença eterna,
se a nossa fe em ti fosse mentida,
dos opressos de outrora os livres netos
por sua ingratidão dignos de oprobrio,
se não te amassem, ainda assim seriam;
mas es nuncia do ceo: e eles te insultam,
esquecidos das lagrimas perenes
por trinta gerações, que guarda a campa,
vertidas aos teus pes nos dias torvos
do seu viver de escravidão! Deslumbram-se
de que, se a paz domestica, a pureza
do leito conjugal bruta violencia
não vai contaminar, se a filha virgem
do humilde camponés não é ludibrio
do opulento, do nobre, ó cruz, t’ o devem;
que por ti o cultor de ferteis campos
colhe tranquilo da fatiga o premio,
sem que a voz de um senhor, qual d’antes dura,
lhe diga: É meu, e es meu. A mim deleites,
liberdade, abundancia; a ti, escravo,
o trabalho, a miseria, unido á terra
que o suor dessa fronte fertilisa,
em quanto, em dia de furor ou tedio,
não me apraz com teus restos fecundâ-la.
Quando calada a humanidade ouvia
este atroz blasfemar, tu te elevaste
lá do Oriente, ó cruz, envolta em gloria,
e bradaste tremenda ao forte, ao rico:
Mentira! E o servo alevantou os olhos,
onde a esperança scintilava, a medo,
e viu as faces do senhor retintas
em palidez mortal e errar-lhe a vista
trepida, vaga: a cruz no ceo do Oriente
da liberdade anunciava a vinda.
Cansado, o ancião guerreiro, que a existencia
desgastou no volver de cem combates,
ao ver que enfim o seu pais querido
ja não ousam calcar os pes de estranhos,
vem assentar-se á luz meiga da tarde,
na tarde do viver, junto do teixo
da montanha natal. No fronte calvo
que o sol tostou e que enrugaram anos,
ha um como fulgor, sereno e santo.
Da aldea semi-deus, devem-lhe todos
o teito, a liberdade, e a honra e vida.
Ao perpassar do veterano os velhos
a mão que os protegeu apertam gratos;
com amorosa timidez os moços
saudam-no qual pai. Nas largas noites
de gelada estação sobre a lareira
nunca lhe falta o cepo incendiado;
sobre a mesa frugal nunca no estio
refrigerante pomo: assim do velho
pelejador os derradeiros dias
derivam para o tumulo suaves,
rodeados de afecto, e quando á terra
a mão do tempo gastador o guia,
sobre a lousa a saudade ainda lhe esparze
flores, lagrimas, bençãos que consolem
do defensor do fraco as cinzas frias.
Pobre cruz! Pelejaste mil combates,
os gigantes combates dos tiranos,
e venceste. No solo libertado
que pediste? Um retiro no deserto,
um pincaro granitico, açoutado
pelas asas do vento, e enegrecido
por chuvas e por sois. Para ameigar-te
este ar humido e gelido a segure
não foi ferir do bosque o rei; do estio
no ardor canicular nunca disseste:
Dai-me sequer do bravo medronheiro
o desprezado fruto; o teu vestido
era o musgo que tece a mão do inverno
e Deus creou para trajar as rochas.
Filha do ceo, o ceo era teu teito,
teu escabelo o dorso da montanha.
Tempo houve em que esses braços te adornava
coroa viçosa de gentis boninas
e o pedestal te rodeavam preces.
Ficaste em breve só e a voz humana
fez pouco a pouco junto a ti silencio.
Que te importa? As arvores da encosta
curvavam-se a saudar-te, e revoando
as aves vinham circundar-te de hinos.
Afagava-te o raio derradeiro
frouxo do sol ao mergulhar nos mares,
e esperavas o tumulo. O teu tumulo
devera ser o seo destas serras
quando em genesis novo á voz do Eterno
do orbe ao nucleo fervente que as gerara
elas nas fauces dos volcões decessem.
Entam para essa campa flores, bençãos,
ou de saudade lagrimas vertidas,
qual do velho soldado a lousa pede
não pediras á ingrata raça humana
ao pe de ti no seu sudario envolta.
Este longo esperar do dia extremo
no esquecimento do ermo abandonado
foi duro de sofrer aos teus remidos,
ó redentora cruz! Eras acaso
como um remorso e acusação perene
no teu rochedo alpestre onde te viam
pousar triste e só? Acaso á noite,
quando a procela no pinhal rugia,
criam ouvir-te a voz acusadora
sobrelevar a voz da tempestade?
Que lhes dizias tu? De Deus falavas
e do seu Cristo, do divino mártir,
que a ti, suplicio e afronta, a ti maldita
ergueu, purificou, clamando ao servo
no seu trance final: Ergue-te, escravo!
Es livre, como é pura a cruz da infamia:
ela vil e tu vil, santo, sublime
sereis ante meu Pai: ergue-te, escravo!
Abraça tua irman, segue-a sem susto
no caminho dos seculos; da terra
pertence-lhe o porvir, e o seu triunfo
trará de tua liberdade o dia.
Eis porque teus irmãos te arrojam pedras
ao perpassar, Ó cruz! Pensam ouvir-te
nos rumores da noite a antiga historia,
recontando do Golgota, lembrando-lhes
que só ao Cristo a liberdade devem
e que impio o povo ser é ser infame.
Mutilado por ele, a pouco e pouco,
tu em fragmentos tombarás do cerro,
simbolo sacrosanto: hão de os humanos
aos pes pisar-te, e esquecerás no mundo.
Da gratidão a divida não paga
ficará, ó tremenda acusadora,
sem que as faces lhes tinja a cor do pejo,
sem que o remorso os corações lhes rasgue.
Do Cristo o nome passará na terra.
Não! Quando em pó desfeita a cruz divina
deixar de ser perene testemunha
da avita crença, os montes, a espessura,
o mar, a lua, o murmurar da fonte,
da natureza as vagas harmonias
da cruz em nome falarão do Verbo.
Dela no pedestal entam deserto
do deserto no seo, ainda o poeta
virá talvez ao pôr do sol sentar-se,
e a voz da selva lhe dirá que é santo
este rochedo nu e um hino pio
a solidão lhe ensinará e a noite.
Do cantico futuro uma toada
não sintes vir, ó cruz, de alem dos tempos,
da brisa do crepusculo nas asas?
É o porvir que te proclama eterna,
é a voz do poeta a saudar-te.
Montanha do Oriente,
que sobre as nuvens elevando o cume,
divisas logo o sol, surgindo a aurora,
e que lá no Occidente
ultima ves seu radioso lume,
em ti minha alma a eterna cruz adora.
Rochedo que descansas
no promontorio nu e solitario,
como atalaia que o Oceano explora,
alheo ás mil mudanças
que o mundo agitam turbulento e vario,
em ti minha alma a eterna cruz adora.
Sobros, robles frondentes,
cuja sombra procura o viandante
fugindo ao sol a prumo que o devora,
nesses dias ardentes
em que o Leão nos ceos passa radiante,
em ti minha alma a eterna cruz adora.
Ó mato variado,
de rosmaninho e murta entretecido,
de cujas tenues flores se evapora
aroma delicado,
quando es por leve aragem sacudido,
em ti minha alma a eterna cruz adora.
Ó mar que vais quebrando
rolo apos rolo pela praia fria,
e fremes som de paz consoladora,
dormente murmurando
na caverna maritima sombria,
em ti minha alma a eterna cruz adora.
Ó lua silenciosa,
que em perpetuo volver seguindo a terra,
esparzes tua luz ameigadora
pela serra formosa
e pelos lagos que em seu seo encerra,
em ti minha alma a eterna cruz adora.
Surges, simbolo eterno
no ceo, na terra, no mar,
do forte no expirar,
e do viver no alvor!
_174. A Tempestade_
Sibila o vento, os torreões de nuvens
pesam nos densos ares;
ruge ao largo a procela e encurva as ondas
pola extensão dos mares:
a imensa vaga ao longe vem correndo
em seu terror envolta,
e de entre as sombras rapidas centelhas
a tempestade solta.
Do sol no ocaso um raio derradeiro
que, apenas fulge, morre,
escapa á nuvem que apressada e espessa
para apagâ-la corre.
Tal nos afaga em sonhos a esperança
ao despertar do dia,
mas no acordar lá vem a conciencia
dizer que ela mentia.
As ondas negro-azues se conglobaram,
serras tornadas são,
contra as quais outras serras que se arqueam
bater, partir-se vão.
Ó tempestade! eu te saudo, ó nume,
da natureza açoite!
Tu guias os vulcões, do mar princesa,
e é tu vestido a noite.
Quando pelos pinhais entre o granizo,
ao susurrar das ramas,
vibrando sustos pavorosa ruges
e assolação derramas,
quem porfiar contigo entam ousara
de gloria e poderio,
tu que fazes gemer pendido o cedro,
turbar-se o claro rio?
Quem me dera ser tu por balouçar-me
das nuvens nos castelos
e ver dos ferros meus enfim quebrados
os rebatidos elos!
Eu rodeara entam o globo inteiro,
eu sublevara as aguas,
eu dos vulcões com raios acendera
amortecidas fraguas;
do robusto carvalho e sobro antigo
acurvaria as frontes;
com furacões as areais da Libia
converteria em montes.
Pelo fulgor da lua, lá no Norte,
no polo me assentara
e vira prolongar-se o gelo eterno
que o tempo amontoara.
Ali eu solitario, eu rei da morte,
erguera meu clamor,
e dissera: Sou livre e tenho imperio,
aqui sou eu senhor!
Quem se podera erguer como estas vagas
em turbilhões incertos,
e correr e correr, troando ao longe
nos liquidos desertos!
Mas entre membros de lodoso barro
a mente presa está,
ergue-se em vão aos ceos, precipitada
rapida em baixo dá.
Ó morte, amiga morte! É sobre as vagas,
entre escarceos erguidos,
que eu te invoco, pedindo-te feneçam
meus dias aborridos:
quebra duras prisões que a natureza
lançou a esta alma ardente,
que ela possa voar por entre os orbes
aos pes do Omnipotente!
Sobre a nao que me estreita a prenhe nuvem
deça e estourando me esmague,
e a grossa proa dos tufões ludibrio
solta sem rumo vague!
Porem não! Dormir deixa os que me cercam
o sono do existir;
deixa-os, vãos sonhadores de esperanças
nas trevas do porvir.
Doce mãi do repouso, extremo abrigo
de um coração opresso,
que ao ligeiro prazer, á dor cansada
negas no seo acesso,
não despertes, ó não, os que abominam
teu amoroso aspeito,
febricitantes que se abraçam loucos
com seu dorido leito!
Tu que ao misero ris com rir tam meigo,
caluniada morte,
tu que entre os braços teus lhe dás asilo
contra o furor da sorte;
tu que esperas ás portas dos senhores,
do servo ao limiar,
e eterna corres, peregrina, a terra
e as solidões do mar,
deixa, deixa sonhar ventura os homens:
ja filhos teus naceram;
um dia acordarão d’ esses delirios
que tam gratos lhes eram.
E eu que velo na vida e ja não sonho
nem gloria nem ventura,
eu que esgotei tam cedo até as fezes
o calix da amargura;
eu vagabundo e pobre e aos pes calcado
de quanto ha vil no mundo,
santas inspirações morrer sentindo
do coração no fundo,
sem achar no desterro uma harmonia
de alma que a minha entenda,
porque seguir, curvado ante a desgraça,
esta espinhosa senda?
Torvo o oceano vai: qual dobre soa
fragor da tempestade,
psalmo de mortos que retumba ao longe
grito da eternidade!
Pensamento infernal! Fugir cobarde
ante o destino iroso?
Lançar-me envolto em maldições celestes
no abisso tormentoso?
Nunca! Deus pos-me aqui para apurar-me
nas lagrimas da terra:
guardarei minha estancia atribulada
com meu desejo em guerra.
O fiel guardador terá seu premio,
o seu repouso enfim,
e atalaiar o sol de um dia extremo
virá outro apos mim.
Herdarei o morrer: como é suave
bençam de pai querido,
será o despertar, ver meu cadaver,
ver o grilhão partido.
Um consolo entretanto resta ainda
ao pobre velador:
Deus lhe deixou nas trevas da existencia
doce amizade e amor.
Tudo o mais é sepulcro branqueado
por embusteira mão.
Tudo o mais vãos prazeres que só trazem
remorso ao coração.
Passarei minha noite a luz tam meiga
até o amanhecer,
até que suba á patria do repouso
onde não ha morrer.
ANTONIO AUGUSTO SOARES DE PASSOS
[Sidenote: 1826-1870]
_175. O Firmamento_
Gloria a Deus! Eis aberto o livro imenso,
o livro do infinito,
onde em mil letras de fulgor intenso
seu nome adoro escrito.
Eis do seu tabernaculo corrida
uma parte do veo misterioso:
desprende as asas, remontando á vida,
alma que ancias pelo eterno goso!
Estrelas que brilhais nessas moradas,
quais são vossos destinos?
Vos sois, vos sois as lampadas sagradas
de seus umbrais divinos;
pululando do seo omnipotente
e sumidas por fim na eternidade,
sois as faiscas do seu carro ardente
ao rolar através da imensidade;
e cada qual de vos um astro encerra,
um sol que apenas vejo,
monarca de outros mundos como a terra
que formam seu cortejo.
Ninguem pode contar-vos: quem podera
esses mundos contar a que dais vida,
escuros para nos, qual nossa esfera
vos é nas trevas da amplidão sumida.
Mas vos perto brilhais, no fundo acesas
do trono soberano:
quem vos ha de seguir nas profundesas
d’ esse infinito oceano?
E quem ha de contar-vos nessas plagas
que os ceos ostentam de brilhante alvura,
lá onde sua mão sostem as vagas
dos sois que um dia romperão na altura.
E tudo outrora na mudez jazia,
nos veos do frio nada;
reinava a noite escura, a luz do dia
era em Deus concentrada.
Ele falou! E as sombras num momento
se dissiparam na amplidão distante;
Ele falou! E o vasto firmamento
seu veo de mundos desfraldou ovante.
E tudo despertou, e tudo gira
imenso em seus fulgores;
e cada mundo é sonorosa lira
cantando os seus louvores.
Cantai, ó mundos que o seu braço impele,
harpas da creação, fachos do dia,
cantai louvor universal Áquele
que vos sustenta e nos espaços guia!
Terra, globo que geras nas entranhas
meu ser, o ser humano,
que es tu com teus vulcões, tuas montanhas
e com teu vasto oceano?
Tu es um grão de area arrebatado
por esse imenso turbilhão dos mundos
em volta do seu trono levantado
do universo nos seos mais profundos.
E tu, homem, que es tu, ente mesquinho
que soberbo te elevas,
buscando sem cessar abrir caminho
por tuas densas trevas?
Que es tu com teus imperios e colossos?
Um atomo sutil, um frouxo alento:
tu vives um instante, e de teus ossos
só restam cinzas que sacode o vento.
Mas ah, tu pensas, e o girar dos orbes
á razão encadeas:
tu pensas, e inspirado em Deus te absorves
na chama das ideas.
Alegra-te, imortal, que esse alto lume
não morre em trevas de um jazigo escasso:
Gloria a Deus que num atomo resume
o pensamento que transcende o espaço!
Caminha, ó rei da terra; se inda es pobre,
conquista aureo destino,
e de seculo em seculo mais nobre
eleva a Deus teu hino!
E tu, ó terra, nos floridos mantos
abriga os filhos que em teu seo geras
e teu canto de amor reune aos cantos
que a Deus se elevam de milhões de esferas.
Dizem que ja sem forças, moribunda,
tu vergas decadente
Ó não! De tanto sol que te circunda
teu sol inda é fulgente:
tu es jovem ainda, a cada passo
tu assistes de um mundo ás agonias
e rolas entretanto nesse espaço
coberta de perfumes e harmonias.
Mas ai, tu findarás! Alem scintila
hoje um astro brilhante:
amanhã ei-lo treme, ei-lo vacila
e fenece arquejante.
Quem foi? Quem o apagou? Foi seu alento
que extinguiu essa luz ja fatigada,
foram seculos mil, foi um momento
que a eternidade fez volver ao nada.
Um dia, quem o sabe? Um dia, ao peso
dos anos e ruinas,
tu cairás nesse vulcão aceso
que teu sol denominas;
e teus irmãos tambem, esses planetas
que a mesma vida, a mesma luz inflama,
atraidos enfim, quais borboletas,
cairão como tu na mesma chama.
Entam, ó sol, entam nesse aureo trono
que farás tu ainda,
monarca solitario e em abandono,
com tua gloria finda?
Tu findarás tambem, a fria morte
alcançará teu carro chamejante:
ela te segue e profetisa a sorte
nessas manchas que toldam teu semblante.
Que são elas? Talvez os restos frios
de algum antigo mundo
que inda referve em borbotões sombrios
no teu seo profundo;
talvez; e envolta pouco a pouco a frente
nas cinzas sepulcrais de cada filho,
debaixo deles todos de repente
apagarás teu vacilante brilho.
E as sombras pousarão no vasto imperio
que teu facho alumia;
mas que vale de menos um psalterio
dos orbes na harmonia?
Outro sol como tu, outras esferas
virão no espaço descantar seu hino,
renovando nos sitios onde imperas
do sol dos sois o resplendor divino.
Gloria a seu nome! Um dia meditando
outro ceo mais perfeito,
o ceo de agora a seu altivo mando
talvez caia desfeito.
Entam mundos, estrelas, sois brilhantes,
qual bando de aguias na amplidão disperso,
chocando-se em destroços fumegantes,
desabará no fundo do universo.
Entam a vida, refluindo ao seo
do foco soberano,
parará, concentrando-se no meo
d’ esse infinito oceano;
e acabando enfim quanto fulgura,
apenas restarão na imensidade
o silencio, aguardando a voz futura,
o trono de Jehova e a eternidade!
JOÃO DE DEUS RAMOS NOGUEIRA
[Sidenote: 1830-1896]
_176. A Vida_
Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
a luz que nesta vida me guiava,
olhos fitos na qual até contava
ir aos degraos do tumulo decendo.
Em se ela anuviando, em a não vendo,
ja se me a luz de tudo anuviava:
despontava ela apenas, despontava
logo em minha alma a luz que ia perdendo.
Alma gemea da minha e ingenua e pura
como os anjos do ceo, se o não sonharam,
quis mostrar-me que o bem bem pouco dura.
Não sei se me voou, se me a levaram,
nem saiba eu nunca a minha desventura
contar aos que inda em vida não choraram.
Ah, quando no seu colo reclinado,
colo mais puro e candido que arminho,
como abelha na flor do rosmaninho,
osculava seu labio perfumado;
quando á luz dos seus olhos, que era vê-los
e enfeitiçar-se a alma em graça tanta,
lia na sua boca a biblia santa
escrita em letra cor dos seus cabelos;
quando a sua mãosinha, pondo um dedo
em seus labios de rosa pouco aberta,
como timida pomba sempre alerta,
me impunha ora silencio, ora segredo;
quando como a alveola, delicada
e linda como a flor que haja mais linda,
passava como o cisne ou como ainda,
antes do sol raiar, nuvem dourada;
quando em balsamo de alma piedosa
ungia as mãos da suplice indigencia,
como a nuvem nas mãos da Providencia
uma lagrima estila em flor sequiosa;
quando a cruz do colar do seu pescoço
estendendo-me os braços, como estende
o simbolo de amor que as almas prende
me dizia—o que ás mais dizer não ouço;
quando, se negra nuvem me espalhava
por sobre o coração algum desgosto,
conchegando-me ao seu candido rosto
no perfume de um riso a dissipava;
quando o ouro da trança ao vento dando
e a neve do seu colo e seu vestido,
pomba que do seu par se ia perdido,
ja de longe lhe ouvia o peito arfando;
quando o anel da boca luzidia,
vermelha como a rosa chea de agua,
em beijos á saudade abrindo a magua,
mil rosas pela face me esparzia;
tinha o ceo da minha alma as sete cores,
valia-me este mundo um paraiso,
distilava-me a alma um doce riso,
debaixo dos meus pes naciam flores!
Deus era inda meu pai; e em quanto pude
li o seu nome em tudo quanto existe,
no campo em flor, na praia arida e triste,
no ceo, no mar, na terra e na virtude.
Virtude! Que é mais que um nome
essa voz que em ar se esvai
se um riso que ao labio assome
numa lagrima vos cai!
Que es, virtude, se de luto
nos vestes o coração?
Es a blasfemia de Bruto,
não es mais que um nome vão.
Abre a flor á luz que a enleva
seu calix cheo de amor,
e o sol nace, passa e leva
consigo perfume e flor.
Que é d’ esses cabelos de ouro
do mais subido quilate,
d’ esses labios escarlate,
meu tesouro!
Que é d’ esse halito que ainda
o coração me perfuma;
que é do teu colo de espuma,
pomba linda!
Que é de uma flor da guirnalda
de teus dourados cabelos;
d’ esses olhos: quero vê-los,
esmeralda!
Que é d’ essa franja comprida
d’ aquele chaile mais leve
do que a nuvem cor de neve,
Margarida!
Que é d’ essa alma que me deste,
de um sorriso, um só que fosse,
da tua boca tam doce,
flor celeste!
Tua cabeça, que é d’ ela,
a tua cabeça de ouro,
minha pomba, meu tesouro,
minha estrela!
De dia a estrela da alva empalidece;
e a luz do dia eterno te ha ferido!
Em teu languido olhar adormecido
nunca me um dia em rida amanhecesse!
Foste a concha da praia: a flor parece
mais ditosa que tu. Quem te ha partido,
meu calix de cristal onde hei bebido
os nectares do ceo, se um ceo houvesse!
Fonte pura das lagrimas que choro,
quem tam menina e moça desmanchado
te ha pelas nuvens os cabelos de ouro?
Some-te, vela de baixel quebrado,
some-te, voa, apaga-te, meteoro!
É só mais neste mundo um desgraçado.
E as desgraças podia prevê-las
quem a terra sustenta no ar,
quem sustenta no ar as estrelas,
quem levanta ás estrelas o mar.
Deus podia prever a desgraça,
Deus podia prever e não quis!
E não quis, não; se a nuvem que passa
tambem pode chamar-se infeliz.
A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa;
a vida é sonho tam leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai:
a vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
a vida é sopro suave,
a vida é estrela cadente,
voa mais leve que a ave;
nuvem que o vento nos ares,
onda que o vento nos mares
uma apos outra lançou:
a vida, pena caida
da asa de ave ferida,
de vale em vale impelida,
a vida o vento a levou!
Como em sonhos o anjo que me afaga
leva nas tranças os lirios que lhe pus,
e a luz quando se apaga
leva aos olhos a luz!
Levou, sim, como a folha que se desprende
de uma flor delicada o vento sul,
e a estrela que se estende
nessa abobada azul.
Como os avidos olhos de um amante
levam consigo a luz de um doce olhar,
e o vento do levante
leva a onda do mar;
como o tenro filhinho quando expira
leva o beijo dos labios maternais,
e á alma que suspira
o vento leva os ais;
ou como leva ao colo a mãi seu filho
e as asas leva a pomba que voou,
e o sol leva o seu brilho,
o vento m’ a levou!
E Deus, tu es piedoso
Senhor! Es Deus e Pai!
E ao filho desditoso
não ouves pois um ai!
Estrelas deste aos ares,
dás perolas aos mares,
ao campo deste a flor,
frescura dás ás fontes,
o lirio dás aos montes,
e tiras-m’ a, Senhor!
Ah, quando numa vista o mundo abranjo,
estendo os braços e palpando o mundo
o ceo, a terra e o mar vejo aos meus pes;
buscando em vão a imagem do meu anjo,
soletro á frouxa luz de um moribundo
em tudo só: talvez!
Talvez: é hoje a biblia, o livro aberto
que eu só ponho ante mim nas rochas quando
vou pelo mundo ver se a posso ver;
e onde, como a palmeira do deserto,
apenas vejo aos pes inquieta ondeando
a sombra do meu ser!
Meu ser voou na asa da aguia negra,
que levando-a só não levou consigo
de esta alma aquele amor!
E quando a luz do sol o mundo alegra,
crisalida nocturna a sós comigo
abraço a minha dor.
Dor inutil! Se a flor que ao ceo envia
seus balsamos se esfolha, e tu no espaço
achas depois seus atomos sutis,
inda has de ouvir a voz que ouviste um dia,
como a sua Leonor inda ouve o Tasso,
Dante a sua Beatriz.
Nunca! responde a folha que o outono,
da haste que a sustinha a mão abrindo,
ao vento confiou;
Nunca! responde a campa onde do sono
e quem talvez sonhava um sonho lindo
um dia despertou.
Nunca! responde o ai que o labio vibra,
Nunca! responde a rosa que na face
um dia emurcheceu;
e a onda que um momento se equilibra
em quanto diz ás mais: deixai que eu passe,
e passou, e morreu!
_177. Na campa de Anthero de Quental_
Aqui jaz pó, eu não; eu sou quem fui:
raio animado de uma luz celeste,
á qual a morte as almas restitui,
restituindo á terra o pó que as veste.
THOMAZ RIBEIRO
[Sidenote: 1831-1901]
_178. A Portugal_
Meu Portugal, meu berço de inocente,
lisa estrada que andei debil infante,
variado jardim do adolecente:
meu laranjal em flor sempre odorante,
minha tarde de amor, meu dia ardente,
minha noite de estrelas rutilante,
meu vergado pomar de um rico outono,
sê meu braço final no ultimo sono!
Costumei-me a saber os teus segredos
desde que soube amar, e amei-os tanto!
Sonhava ás noites de teus dias ledos
afogado de enlevo, em riso e em pranto.
Quis dar-te hinos de amor, debeis os dedos
não sabiam soltar da lira o canto,
mas amar-te do esplendor do imenso brilho:
eu tinha um coração e era teu filho!
Jardim da Europa á beira-mar plantado
de louros e de acacias olorosas,
de fontes e de rios serpeado,
rasgado por torrentes alterosas;
onde num cerro erguido e requeimado
se casam em festões jasmins e rosas:
balsa virente de eternal magia
onde as aves gorgeiam noite e dia.
O que te desdenhar mente sem brio,
ou nunca viu teus prados e teus montes,
ou nunca ao pôr do sol de ameno estio
viu franjas de ouro e rosa os horisontes,
ondas de prata e azul em cada rio,
as perolas e rubis de teus fontes,
nem de teus anjos, tenro paraiso,
sentiu o magnetismo num sorriso.
Patria, filha do sol das primaveras,
rica dona de messes e pomares,
recorda ao mundo ingrato as priscas eras
em que lhe ensinaste a erguer altares!
Mostra-lhe os esqueletos das galeras
que foram descobrir mundos e mares:
se alguem despresar teu manto pobre,
ri-te do fatuo que se julgar nobre!
Porque te miras triste sobre as aguas,
pobre—de aquem e de alem mar senhora,
e te consomes nas candentes fraguas
das saudades crueis que tens de outrora?
Por tantos louros que te deram? Maguas?
Foste mal paga e mal julgada? Embora!
Has de cingir o teu diadema augusto:
são teus filhos leais e Deus é justo!
Tres testemunhas tens que ao mundo inteiro
grandes hão de levar-te a ingente gloria:
Camões, o sol, o oceano; que o primeiro
ergueu-te em alto canto a nobre historia.
Com prantos e com sangue, audaz guerreiro,
o seu livro escreveu de alta memoria:
lede os cantos divinos do poeta
entoados em harpa de profeta.
O mar, na eterna lide porfiosa,
cansado de correr largos desvios,
vem apagar a sede angustiosa
no saboroso nectar dos teus rios;
e quando em outra idade mais ditosa
tu mandaste alongar teus senhorios,
conhecendo o roçar das tuas sondas
cavou as penhas e aplanou as ondas.
Bramir ouviste o genio das tormentas,
algoz de tanto nauta aventureiro,
vestido de neblinas pardacentas,
assoprando golfadas de aguaceiro;
mas quando viu nas quilhas tam atentas
içado teu pendão tam altaneiro,
acendendo o Santelmo resplandecente
iluminou-te as portas do Oriente.
Fiel, sempre fiel á tua gloria,
conduziu-te o evangelho a longas terras;
acompanhou-te os cantos de vitoria,
saudou-te os brios em longinquas guerras:
rasguem embora, ó patria, a tua historia,
em quanto o mar bramir, quebrando serras,
ou brincar na area em bonança,
ha de falar de ti, patria, descansa.
Qual no deserto o lasso viajante
vai no oasis sentar-se ao fim do dia,
achando, atenuado e arquejante,
verdor, fontes, aromas e harmonias,
e naquela atmosfera inebriante
se alimenta, se farta, se extasia,
tal es do sol oasis reservado,
jardim da Europa á beira-mar plantado!
Aqui apura os raios da luz pura
nos bosques, nos rosais e nas campinas,
de um iris coroa a nuvem mais esquiva
nem tem coroa real pedras mais finas;
faz prisma cada fonte que deriva
por encosta suave entre boninas,
dá luz suave á relva que verdeja;
e o sol de Portugal o mundo inveja.
Mas não é de hoje só que o passageiro
que te ve ledo banhar em cada fonte,
ou entre a branda relva do valeiro
ou sobre as neves do jaspeado monte;
ja não é de hoje só que o mundo inteiro
fala do brilho teu nesto horisonte:
ja Celtiberos, Mouros e Romanos
choraram pelo sol dos Lusitanos.
Lua do meu pais, não me esqueceste,
que eu sempre soube amar tua lindeza,
bem sei que é este o solio que escolheste,
bem sei que tens aqui a maior pureza;
mas tanto os meus segredos entendeste,
era tam minha só tua tristeza,
que se não te invoquei, saudosa lua,
foi pelos zelos da terra, minha e tua!
Por ti canto meu berço de inocente,
lisa estrada que andei debil infante,
meu viçoso jardim de adolecente,
meu laranjal em flor sempre odorante;
minha tarde de amor, meu dia ardente,
minha noite de estrelas rutilante:
tu dá-me, ao cerrar noite o meu inverno,
um leito funeral ao sono eterno!
JULIO DINIZ
[Sidenote: 1839-1871]
_179. Meteoro_
Não a viram passar? Era no outono,
quando languece a flor, quando na selva
se cala o rouxinol e ao abandono
jazem as folhas na crestada relva.
Não a viram passar? As altas neves
revestiam das serras as cumiadas
e cm vez das brisas perpassando leves
assopravam violentas as rajadas.
No meo da tristeza destas scenas
ela só, muda e palida, sorria,
o seo a anuviar-se-lhe de penas,
o rosto a iluminar-se de alegria.
Não a viram? Passou. A natureza
é outra vez de galas revestida:
mas minha alma é coberta de tristeza
como naquele instante da partida.
ANTHERO DE QUENTAL
[Sidenote: 1842-1891]
_180. Nocturno_
Espirito que passas quando o vento
adormece no mar e surge a lua,
filho esquivo da noite que flutua,
tu só entendes bem o meu tormento.
Como um canto longinquo, triste e lento,
que voga e sutilmente se insinua,
sobre o meu coração que tumultua
tu vestes pouco a pouco o esquecimento.
A ti confio o sonho que me leva
um instinto de luz, rompendo a treva,
buscando entre visões o eterno bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
a febre de ideal que me consome,
tu só, genio da noite, e mais ninguem.
_181. Sollemnia verba_
Disse ao meu coração: Olha por quantos
caminhos vãos andamos! Considera
agora, de esta altura fria e austera,
os ermos que regaram nossos prantos:
pó e cinzas onde houve flor e encantos,
e noite onde foi luz de primavera!
Olha a teus pes o mundo e desespera,
semeador de sombras e quebrantos!
Porem o coração, feito valente
na escola da tortura repetida,
e no uso do penar tomado crente,
respondeu: Desta altura vejo o amor!
Viver não foi em vão se é isto a vida,
nem foi de mais o desengano e a dor.
_182. O Palacio da Ventura_
Sonho que sou um cavaleiro andante,
por desertos, por sois, por noite escura,
paladino do amor, busco anhelante
o palacio encantado da Ventura.
Mas ja desmaio, exhausto e vacilante,
quebrada a espada ja, rota a armadura;
e eis que subito o avisto, fulgurante
na sua pompa e aerea formosura!
Com grandes golpes bato á porta e brado:
Eu sou o vagamundo, o desherdado,
abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas de ouro com fragor,
mas dentro encontro só, cheo de dor,
silencio e escuridão, e nada mais!
_183. Acordando_
Em sonho ás vezes, se o sonho quebranta
este meu vão sofrer, esta agonia,
como sobe cantando a cotovia,
para o ceo a minha alma sobe e canta.
Canta a luz, a alvorada, a estrela santa
que ao mundo traz piedosa mais um dia;
canta o enlevo das cousas, a alegria
que as penetra de amor e as alevanta.
Mas de repente um vento humido e frio
sopra sobre o meu sonho: um calafrio
me acorda. A noite é negra e muda, a dor
lá vela como d’ antes ao meu lado:
os meus cantos de luz, anjo adorado,
são sonho só e sonho o meu amor!
_184. Transcendentalismo_
Ja sossega depois de tanta luta,
ja me descansa em paz o coração;
caí na conta enfim de quanto é vão
o bem que ao mundo e á sorte se disputa
Penetrando com fronte não enxuta
no sacrario do templo da ilusão,
só encontrei com dor e confusão
trevas e pó, uma materia bruta.
Não é no vasto mundo, por imenso
que ele pareça á nossa mocidade,
que a alma sacia o seu desejo intenso
na esfera do invisivel, do intangivel:
sobre desertos, vacuo, soledade,
voa a paira o espirito impassivel.
_185. Na mão de Deus_
Na mão de Deus, na sua mão direita
descansou afinal meu coração:
do palacio encantado da ilusão
deci passo a passo a escada estreita.
Como as flores mortais com que se enfeita
a ignorancia infantil, despojo vão,
depus do ideal e da paixão
a forma transitoria e imperfeita;
como criança em lobrega jornada
que a mãi leva ao colo agasalhada,
e atravessa, sorrindo vagamente,
selvas, mares, areas do deserto,
dorme o teu sono, coração liberto,
dorme na mão de Deus eternamente!
_186. Redenção_
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