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Chapter D: Philipa De Lencastre

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[Sidenote: 1437-1497]

_88. Ao Bom Jesus_

Nam vos sirvo nem vos amo
mas desejo vos amar,
de sempre vossa me chamo
sem quem nam é repousar.

Ó vida e lume e luz,
infindo bem e inteiro,
meu Jesus, Deus verdadeiro,
por mim morto em a cruz.

Se mim mesma nam desamo
nam vos posso bem amar:
a me ajudar vos chamo
para saber repousar!

FRANCISCO DE SOUSA

[Sidenote: 15th c.]

_89. Vilancete_

Abaix’ esta serra
verei minha terra.

Ó montes erguidos,
deixai-vos cair!
deixai-vos sumir
e ser destruidos,
pois males sentidos
me dam tanta guerra
por ver minha terra.

Ribeiras do mar
que tendes mudanças,
as minhas lembranças
deixai-as passar!
deixai-m’ as tornar
dar novas da terra
que dá tanta guerra.

O sol escurece,
a noite se vem:
meus olhos, meu bem
ja nam aparece;
mais cedo anoitece
aquem desta serra
que na minha terra!

GARCIA DE RESENDE

[Sidenote: c. 1470-1536]

_90. Trovas á morte de D. Inés de Castro_

Qual será o coraçam
tam cru e sem piedade
que lhe nam cause paixam
uma tam fera crueldade
e morte tam sem razam?
Triste de mim inocente,
que por ter muito fervente
lealdade, fe, amor
ao principe meu senhor,
me mataram cruamente.

A minha desaventura,
nam contente d’ acabar-me,
por me dar maior tristura
me foi pôr em tanta altura
para d’ alto derribar-me,
que se me matara alguem
antes de ter tanto bem
em tais chamas nam ardera,
pai, filhos nam conhecera,
nem me chorara ninguem.

Eu era moça menina,
por nome dona Inés
de Crasto, e de tal doutrina
e vertudes que era dina
de meu mal ser ao revés.
Vivia sem me lembrar
que paixam podia dar
nem dâ-la ninguem a mim,
foi-m’ o principe olhar
por seu nojo e minha fim.

Começou-m’ a desejar,
trabalhou por me servir,
fortuna foi ordenar
dous corações conformar,
a uma vontade vir.
Conheceo-me, conheci-o,
quis-me bem e eu a ele,
perdeo-me, tambem perdi-o;
nunca té morte foi frio
o bem que triste pos nele.

Dei-lhe minha liberdade,
nam senti perda de fama,
pos nele minha verdade,
quis fazer sua vontade,
sendo mui fremosa dama.
Por m’ estas obras pagar
nunca jamais quis casar,
polo qual aconselhado
foi el rei qu’ era forçado
polo seu de me matar.

Estava muito acatada,
como princesa servida,
em meus paços mui honrada,
de tudo mui abastada,
de meu senhor mui querida:
estando mui de vagar,
bem fora de tal cuidar,
em Coimbra d’ assessego,
polos campos de Mondego
cavaleiros vi asomar.

Como as cousas que ham de ser
logo dam no coraçam,
comecei entristecer
e comigo só dizer:
Estes ornes onde irão?
E tanto que preguntei:
soube logo que era el rei.
Quando o vi tam apressado,
meu coraçam trespassado
foi que nunca mais falei.

E quando vi que decia,
saí á porta da sala,
devinhando o que queria;
com gram choro e cortesia
lhe fiz uma triste fala;
meus filhos pos derredor
de mim com gram omildade,
mui cortada de temor,
lhe disse: Avei, senhor,
desta triste piedade.

Nam possa mais a paixam
que o que deveis fazer,
metei nisso bem a mão,
que é de fraco coraçam
sem porque matar molher;
quanto mais a mim (que dam
culpa nam sendo razam)
por ser mãi dos inocentes
qu’ ante vos estam presentes,
os quais vossos netos sam.

E tem tam pouca idade
que se nam forem criados
de mim, só com saudade
em sua gram orfandade
morrerão desemparados.
Olhe bem quanta crueza
fará nisso vossa alteza,
e tambem, senhor, olhai,
pois do principe sois pai,
nam lhe deis tanta tristeza!

Lembre-vos o grand’ amor
que me vosso filho tem,
e que sentirá gram dor
morrer-lhe tal servidor
por lhe querer grande bem;
que s’ algum erro fizera
fora bem que padecera
e qu’ estes filhos ficaram
orfãos tristes e buscaram
quem deles paixam ouvera.

Mas pois eu nunca errei
e sempre mereci mais,
deveis, poderoso rei,
nam quebrantar vossa lei,
que, se moiro, quebrantais.
Usai mais de piedade
que de rigor nem vontade;
avei dó, senhor, de mim,
nam me deis tam triste fim,
pois que nunca fiz maldade!

El rei, vendo como estava,
ouve de mim compaixam,
e vio o que nam oulhava,
qu’ eu a ele nam errava
nem fizera traiçam.
E vendo quam de verdade
tive amor e lealdade
ao principe, cuja sam,
póde mais a piedade
que a determinaçam.

Que se m’ ele defendera
que seu filho nam amasse
e lh’ eu nam obedecera,
entam com razam podera
dar-m’ a morte qu’ ordenasse;
mas vendo que nenhum’ ora
des que naci ategora
nunca nisso me falou,
quando se disto lembrou
foi pola porta fora,

com seu rosto lagrimoso,
c’ o proposito mudado,
muito triste, mui cuidoso,
como rei mui piedoso,
mui cristão e esforçado.
Um d’ aqueles que trazia
consigo na companhia,
cavaleiro desalmado,
detras dele mui irado
estas palavras dizia:

Senhor, vossa piedade
é dina de reprender,
pois que sem necessidade
mudaram vossa vontade
lagrimas d’ uma molher.
E quereis qu’ abarregado,
com filhos como casado,
esté, senhor, vosso filho:
de vos mais me maravilho
que dele, qu’ é namorado.

Se a logo nam matais
nam sereis nunca temido
nem farão o que mandais,
pois tam cedo vos mudais
do conselho qu’ era avido.
Olhai quam justa querela
tendes, pois por amor dela
vosso filho quer estar
sem casar e nos quer dar
muita guerra com Castela.

Com sua morte escusareis
muitas mortes, muitos danos:
vos, senhor, descansareis
e a vos e a nos dareis
paz para duzentos anos.
O principe casará,
filhos de bençam terá,
será fora de pecado:
que agora seja anojado,
amenham lh’ esquecerá!

E ouvindo seu dizer
el rei ficou mui torvado
por se em tais extremos ver
e que avia de fazer
ou um ou outro forçado.
Desejava dar-me vida
por lhe nam ter merecida
a morte nem nenhum mal,
sentia pena mortal
por ter feito tal partida.

E vendo que se lhe dava
a ele tod’ esta culpa
e que tanto o apertava,
disse a aquel que bradava:
Minha tençam me desculpa;
se o vos quereis fazer
fazei-o sem m’ o dizer,
qu’ eu nisso nam mando nada
nem vejo a essa coitada
porque deva de morrer.

Dous cavaleiros irosos
que tais palavras lh’ ouviram,
mui crús e nam piedosos,
perversos, desamorosos,
contra mim rijo se viram
com as espadas na mão:
m’ atravessam o coraçam,
a confissam me tolheram.
Este é o galhardam
que meus amores me deram.

GIL VICENTE

[Sidenote: c. 1470-c. 1540.]

_91. Dom Duardos e Flerida_

Era pelo mes de Abril, de Maio antes um dia,
quando lirios e rosas mostram mais alegria,
e a noite mais serena que fazer no ceo podia,
quando a formosa infanta Flerida ja se partia;
e na horta de seu padre entre as arvores dizia:
Com Deus vos ficade, flores, que ereis minha alegria:
vou-me a terras estrangeiras, pois lá ventura me guia.
E se meu pai me buscar, pai que tanto queria,
digam-lhe que amor me leva, que eu por vontade nam ia;
mas tanto teimou comigo que me venceu co’ a porfia.
Triste nam sei onde vou e ninguem m’ o dizia.
Ali fala Dom Duardos: Nam choreis, minha alegria,
que nos reinos de Inglaterra mais claras aguas havia,
e mais formosos jardins e flores de mais valia.
Tereis trezentas donzelas de alta genealogia;
de prata sam os palacios para vossa senhoria,
de esmeraldas e jacintos, e ouro fino da Turquia,
com letreiros esmaltados que a minha vida se lia,
contando das vivas dores que me destes nesse dia
quando com Primaleam fortemente combatia:
mataste-me vos, senhora, que eu a ele nam temia.
Suas lagrimas enxuga Florida que isto ouvia.
Ja se foram ás galeras que Dom Duardos havia,
cincoenta eram por conta, todas vam em companhia.
Ao som do doce remar a princesa adormecia
nos braços de Dom Duardos que tam bem a merecia.
Saibam quantos sam nacidas sentença que nam varia:
Contra a morte e contra amor que ninguem nam tem valia.

_92. Cossante_

Um amigo que eu havia
mançanas d’ ouro m’ envia.
Garrido amor!

Um amigo que eu amava
mançanas d’ ouro me manda.
Garrido amor!

Mançanas d’ ouro m’ envia:
a milhor era partida.
Garrido amor!

[Mançanas d’ ouro me manda:
a milhor era quebrada.
Garrido amor!]

_93. Cantiga_

Branca estais e colorada,
Virgem sagrada!
Em Belem, vila do amor,
da rosa naceo a flor.
Virgem sagrada!
Em Belem, vila do amar,
naceo a rosa do rosal.
Virgem sagrada!
Da rosa naceo a flor,
Jesus Nosso Salvador.
Virgem sagrada!
Naceo a rosa do rosal,
Deus e homem natural.
Virgem sagrada!

_94. Cantiga de amigo_

Donde vindes, filha,
branca e colorida?
De lá venho, madre,
de ribas de um rio:
achei meus amores
num rosal florido.
Florido, minha filha,
branca e colorida.
De lá venho, madre,
de ribas de um alto:
achei meus amores
num rosal granado.
Granado, minha filha,
branca e colorida.

_95. Cossante_

Canas do amor, canas,
Canas do amor.

Polo longo de um rio
canaval está florido,
Canas do amor.

[Polo longo de um vado
canaval está granado,
Canas do amor.]

_96. Cantiga_

Tirai os olhos de mim,
minha vida e meu descanso,
que me estais namorando.
Os vossos olhos, senhora,
senhora da formosura,
por cada momento de hora
dão mil anos de tristura,
temo de nam ter ventura.
Vida, nam m’ estais olhando,
que me estais namorando.

_97. Esparsa_

Asuidade na molher
mata o coraçam e alma,
porque momento nam acalma
a tormenta que tiver.
Que tu, se te vas de mi,
verás outras formosuras,
falas e ouves doçuras;
mas eu nam vejo sem ti
senam cousas muito escuras.

_98. Serranilha_

A serra é alta, fria e nevosa:
vi venir serrana gentil, graciosa.

Vi venir serrana gentil, graciosa,
cheguei-me a ela com gran cortesia.

Chegui-me a ela de gran cortesia.
Disse-lhe: Senhora, quereis companhia?

Disse-lhe: Senhora, quereis companhia?
Disse-me: Escudeiro, segui vossa via.

_99. Romance_

Remando vam remadores
barca de grande alegria,
o patrão que a guiava
Filho de Deus se dizia,
anjos eram os remeiros
que remavam a porfia;
estandarte d’ esperança:
ó quam bem que parecia!
O masto de fortaleza
como cristal reluzia;
a vela com fe cosida
todo o mundo esclarecia.
A ribeira mui serena
que nenhum vento bolia.

_100. Vilancete_

Adorai, montanhas,
o Deus das alturas,
tambem as verduras;
adorai, desertos
e serras floridas,
o Deus dos secretos,
o Senhor das vidas!
Ribeiras crecidas,
louvai nas alturas
Deus das criaturas!
Louvai, arvoredos
de fruto prezado,
digam os penedos:
Deus seja louvado!
E louve meu gado
nestas verduras
o Deus das alturas!

BERNARDIM RIBEIRO

[Sidenote: 1482-1552]

_101. Egloga de Jano e Franco_

Dizem que havia um pastor
antre Tejo e Odiana
que era perdido de amor
por uma moça Joana:
Joana patas guardava
pela ribeira do Tejo;
seu pai acerca morava
e o pastor de Alentejo
era e Jano se chamava.

Quando as fomes grandes foram
que Alentejo foi perdido,
da aldea que chamam o Torram
foi este pastor fugido;
levava um pouco de gado
que lhe ficou d’ outro muito
que lhe morreo de cansado,
que Alentejo era enxuto
d’ agua e mui seco de prado.

Toda a terra foi perdida:
no campo do Tejo só
achava o gado guarida;
ver Alentejo era um dó.
E Jano para salvar
o gado que lhe ficou
foi esta terra buscar,
e se um cuidado levou
outro foi ele lá achar.

O dia que ali chegou
com seu gado e com seu fato,
com tudo se agasalhou
em uma bicada de um mato;
e levando-o a pacer
o outro dia á ribeira
Joana acertou de ir ver,
que se andava pela ribeira
do Tejo a flores colher.

Vestido branco trazia,
um pouco afrontada andava,
formosa bem parecia
aos olhos de quem na olhava.
Jano em vendo-a foi pasmado,
mas por ver que ele fazia
escondeo-se antre um prado:
Joana flores colhia,
Jano colhia cuidado.

Depois que ela teve as flores
ja colhidas e escolhidas
as desvariadas cores,
com rosas entremetidas,
fez delas uma capela
e soltou os seus cabelos
que eram tam longos como ela;
e de cada um a Jano em vê-lo
nacia uma querela.

E em quanto isto fazia
Joana, o seu gado andava
por dentro da agua fria
todo apos quem o guiava:
um pato grande era a guia,
e todo junto em carreira
ora rio acima ia,
ora na mesma maneira
o rio abaixo decia.

Joana como assentou
a capela, foi com a mão
á cabeça e atentou
se estava em boa feição;
nam ficando satisfeita
do que da mão presumia,
partio-se d’ ali direita
para onde o rio fazia
d’ agua uma mansa colheita.

Chegando á beira do rio,
as patas logo vieram
todas uma a uma em fio,
que toda a agua moveram;
de quanto ela ja folgou
com aquestes gasalhados
tanto entonces lhe pesou,
e com pedras e com brados
d’ ali longe as enxotou.

Depois que elas foram idas
e que a agua assossegou,
Joana, as abas erguidas,
entrar pela agua ordenou;
e assentando-se entam
as çapatas descalçou
e pondo-as sobre o cham
por dentro da agua entrou,
e a Jano pelo coraçam.

Em quanto com passos quedos
Joana pela agua ia,
antre uns desejos e medos
Jano onde estava ardia:
nam sabia se falasse,
se saisse ou estivesse,
que o amor mandava que ousasse
e porque a nam perdesse
fazia que arreceasse.

Dizem que naqueste meo
se esteve Joana olhando,
e descobrindo o seu seo
olhou-se e disse, um ai dando:
Eu guardo patas, coitada,
nam sei onde isto ha de ir ter:
mais era eu para guardada!
Que concerto foi este ser,
formosa e mal empregada!

Em aquisto Jano ouvindo
nam se pode em si sofrer
que d’ antre as ervas saindo
se nam lançasse a correr.
Joana quando sentiu
os estampidos de Jano
e que se virou e o viu,
temor do presente dano
lhe deu pes com que fugiu.

Mui perto estava o casal
onde vivia o pai dela,
que fez mais longe o mal
que Jano tive de vê-la.
Mas o medo que causou
Joana partir-se assi
tanto as mãos lhe embaraçou
que a çapata ali
com a pressa lhe ficou.

Jano quando viu e olhou
que nenhum remedio havia,
para o lugar se tornou
aonde ela na agua se via;
e vendo a çapata estar
no areal á beira d’ agua,
foi correndo a abraçar.
Tomando-a creceu-lhe a magua
e começou de chorar;

toda a çapata e os peitos
em lagrimas se banharam,
muitos foram os respeitos
que tanto choro causaram.
Encostado ao seu cajado,
a çapata na outra mão,
depois de um longo cuidado
de dentro do coraçam
começou falar cansado:

JANO

Despojo da mais formosa
cousa que viram meus olhos,
para eles sois uma rosa
e para o coraçam abrolhos:
çapata deixada aqui
para mal de outro mor mal,
quem te leixou leva a mi;
que troca tam desigual!
Mas pois assi é, seja assi.

Agora ei vinte e um anos
e nunca inda té agora
me acorda de sentir danos,
os deste meu gado em fora;
e hoje por caso estranho
nam sei em que hora aqui vim:
cobrei cuidado tamanho
que aos outros todos pos fim,
eu mesmo a mi mesmo estranho.

Antes que este mal viesse
que me tantos vai mostrando,
que alguns cuidados tivesse
nam me matavam cuidando;
agora por meus pecados
e segundo em mi vou vendo,
nam podem ser outros fados:
meus cuidados nam entendo
e moiro-me assi de cuidados.

Dentro de meu pensamento
ha tanta contrariedade
que sento contra o que sento
vontade e contra-vontade;
estou em tanto desvairo
que nam me entendo comigo
donde esperarei repairo,
que vejo grande o perigo
e muito mor o contrairo!

Quem me trouxe a esta terra
alhea, onde guardada
me estava tamanha guerra
e a esperança levada!
Comigo me estou espantando
como em tam pouco mudei,
mas cuidando nisto estando
os olhos com que outrem olhei
de mi se estavam vingando.

E por meu mal ser mor inda
de mi tenho o agravo mor
que da minha magua infinda
en fui parte e causador,
que se me nam levantara
d’ antre as ervas onde estava,
mais dos meus olhos gozara
e ja que assi se ordenava
isto ao menos me ficara.

Desastres, cuidava eu ja
quando eu ontem aqui cheguei,
que a vos e a ventura má
ambos acabava, e errei!
Triste, que me parecia
que, o meu gado remediado,
comigo bem me haveria;
e estava-me ordenado
est’ outro mal que ainda havia.

Ó mal, nam vos sabe a vos
quem me vos a mi causou!
Tristes dos meus olhos sós
que trouxeram aonde estou
olhos a certo lugar!
Ribeira mor das ribeiras
que levam as aguas ao mar,
vos me sereis verdadeiras
testemunhas do pesar!

AUTOR

E em dizendo isto, parece,
transportou-se no seu mal
e como a quem o ar falece
caio naquele areal.
Grande espaço se passou
que esteve ali sem sentido
e neste meo chegou
um pastor seu conhecido
e que dormia cuidou.

Franco de Sandovir era
o seu nome e buscava
uma frauta que perdera,
que ele mais que a si amava.
Este era aquel pastor
a quem Celia muito amou,
ninfa do maior primor
que em Mondego se banhou
e que cantava milhor.

E a frauta sua era aquela
que lhe Celia dera quando
o desterraram por ela,
chorando ele, ela chorando.
Viera ele ali morar
porque achou aquelas terras
mais conformes ao cuidar:
d’ ambas partes cercam serras,
no meo campos para olhar.

D’ outro tempo conhecidos
estes dous pastores eram,
d’ estranhas terras nacidos,
nam no bem que se quiseram;
e por aquesta razam
tornou Franco a lhe notar
como jazia no cham
e deu-lhe que sospeitar
o lugar e a feiçam.

Muito esteve duvidando
Franco o que aqui faria:
indo-se e Jano deixando,
o coraçam lhe doia;
tambem para o acordar
nam sabia se acertava,
que Jano era no lugar
novo e arreceava
em cabo de o anojar.

Naquesta duvida estando,
Jano, que estava emborcado,
disse, um sospiro dando:
Ai cuidado e mais cuidado!
Ouvindo-lhe isto dizer,
Franco ficou espantado,
e tornando-o milhor ver
de sob seu esquerdo lado
viu-lhe a çapata ter.

Sospeitou logo o que era,
que era tambem namorado,
e no que Jano dissera
se ouve por certificado.
Naquisto Jano acordou:
quando viu Franco estar,
sem fala um pouco ficou.
Franco, apos o saudar,
falar-lhe assi começou:

FRANCO

Cuidava eu agora, Jano,
que estavas em outra parte
e polo teu aqueste ano
me pesava ir por esta arte.
Desejava ver-te aqui
quando me contava alguem
a seca grande que ha aí
em Alentejo, e porem
nam quisera ver-te assi.

Conta-me, que mal foi este,
que tam demudado estás?
O que houveste ou perdeste?
Se ha remedio havê-lo has.
Faz Jano entam por se erguer,
nam podendo de cansado,
foi-lhe a mão Franco estender,
e a um freixo encostado
lhe começou responder:

JANO

Vim a estes campos que vejo
por dar vida a este meu gado;
vi acabado um desejo,
outro maior começado:
ás minhas vacas dei vida
e a mim a fui tirar,
a profecia comprida
que me Pierio foi dar,
vendo-me a barba pungida.

De Pierio vai gram fama,
disse Franco, antre os pastores,
todos por amigos chama
e dizem que é dado a amores.
Rogo-te, Jano, me digas,
pois te ele avisou primeiro,
como cobraste fatigas?
Que ouço que é mui verdadeiro
para amigos e amigas.

JANO

Tam cansado, respondeo,
d’ um cuidado, Franco, me acho,
que m’ agora aqui naceo
que até na voz tenho empacho.
Ao que ham de acaecer
nam pode homem resistir,
que o que ha de ser ha de ser,
nam se lhe pode fugir,
defender nem esconder.

Mas porque, Franco, contigo
desabafo em falar,
porque sei que es meu amigo,
tudo te quero contar;
nem remedio nem conforto
nam te hei, Franco, de pedir,
que do mal em que estou posto
nam me espero de remir
senam depois que for morto.

Dia era de um gram vodo
que a um santo se fazia,
onde ia o povo todo
por ver e por romaria;
lembra-me que andava entam
vestido todo de novo,
ao hombro um chapeiram
que pasmava todo o povo,
com um cajado na mão.

Tomando-me pelo braço,
Pierio entam me levou
d’ ali um grande espaço
onde milhor sombra achou.
E mandando-me assentar
ele tambem se assentou,
e antes de começar
para mi um pouco olhou,
e a voltas de chorar:

PIERIO

Vejo-te, disse ele, Jano,
dos bens do mundo abastado,
mas contando ano e ano
fico de todo cortado.
Vejo-te lá pela idade
de uma nuve negra cercado,
vejo-te sem liberdade,
de tua terra desterrado,
e mais de tua vontade.

Em terra que inda nam viste
pelo que nela has de ver
vejo-te o coraçam triste
Para em dias que viver.
Has de morrer de uma dor
de que agora andas bem fora:
por isso vive em temor,
que nam sabe homem aquela hora
em que lhe ha de vir o amor.

Nam pode ja longe vir,
Jano, aquisto que te digo;
vejo-te a barba pungir:
olha como andas contigo!
A terra estranha irás
por teu gado nam perderes,
longos males passarás
por uns mui breves prazeres
que verás ou nam verás.

E dando um pouco á cabeça
a maneira d’anojado:
por teu bem porem te creça
a barba, disse, de honrado!
Treslada-o no coraçam
isto que te aqui direi,
que ainda alguns tempos virão
Jano, que te alembrarei:
mande Deus que seja em vão!

Por cobrares a fazenda
a ti mesmo perderás,
perda que nam tem emenda
depois, quando o saberás.
Nos campos de uma ribeira
onde vales ha e lugares
te está guardada a primeira
causa destes teus pesares,
noutra parte a derradeira.

Geitos em cousas pequenas,
louros cabelos ondados
porão para sempre em penas
a ti e teus cuidados.
Falas cheas de desdem,
de presunçam cheas elas,
cousas que outras cousas tem
te causarão as querelas
de que morrer te convem.

JANO

De todo o que te ei contado
todo casi aconteceo,
que o que ainda nam é passado
polo passado se creo.
Agora d’ antes pouco ha
viram meus olhos que foram
quem m’ os levou apos si lá:
a alma a vida se me foram,
desprezaram-se de mi ja.

AUTOR

Um gram cão que Franco trazia,
de grande faro, entramentes
deu com a frauta onde jazia
e trouxe-a entam entre as dentes.
Vendo-a Franco alvoroçou-se
e foi correndo ao cão
que nos pes alevantou-se
e deo-lhe a frauta na mão
e apos aquilo espojou-se.

Escontra Jano tornou
entam Franco, assi dizendo:
quem ve o que desejou
nam se lembra d’ al em o vendo:
fui-te a palavra cortar,
mas d’ aquisto dá tu a culpa
a quem a eu nam posso dar;
ou, Jano, por ti me desculpa,
pois sabes o que é desejar.

De cousa que muito queiras
deve essa frauta de ser,
disse Jano. Sam primeiras,
lhe tornou Franco a dizer.
Quem te tal dono outorgou,
disse-lhe Jano apos isto,
a muito a ti te obrigou.
A la fe gram mestre nisto
deves ser se o cão nam errou.

Canta, Franco, alguma cousa,
ama a musica a tristeza:
veremos se me repousa
onda a magua tem firmeza.
Disse Franco: certamente
cantarei pola vontade
te fazer como a doente,
inda, Jano, que á verdade
a minha é chorar sómente.

Quero-te cantar aquela
que ontem depois que perdi
a frauta cantei sem ela.
Á noite quando me vi
cansado de nam na achar
mais muito que de buscâ-la,
me fui eu ontem lançar;
mas, Jano, faço-te fala
que nam pude olho cerrar.

Lá depois de noite mea,
quando tudo se calava,
comecei em fala chea;
um mocho me acompanhava:
de longe me parecia
(nam sei se me enganava eu)
que ele a mi me respondia
com um ai grande como o meu;
mas o canto assi dizia:

CANTIGA

Perdido e desterrado,
que farei? onde me irei?
depois de desesperado
outra mor magua achei.

Desconsolado de mi,
em terra alhea alongado,
onde por remedio vim
e reparo do meu gado.
Mas ó malaventurado
de mi sem consolaçam!
temo que ha de ser forçado,
pois que fui tam mal fadado,
matar-me com minha mão.

Que conta darei eu agora
a quem nam m’ a ha de pedir?
que desculpa porei ora
a quem nam me ha de ouvir?
Frauta, dom da mais querida
que cobre esta noite escura,
frauta minha, sois perdida!
Façam-me uma sepultura,
que muito ha que estou sem vida.

E ponham na sepultura
letras que digam desta arte:
A da alma está em outra parte.

Se aprouver aos longos anos
e aos empos que ham de vir
que destes graves meus danos
venha Celia parte ouvir,
lá onde triste estiver
se ela consigo apartada
lagrimas ter nam poder,
será minha alma pagada,
ou o que entam de mi ouver.

Inda que nam queira nada,
tudo é menos de passar
que lá os olhos soem levar.

Fugiram contando os dias,
fizeram-se as noites sós,
para os tristes como nos.

Jano, esta é a cantiga,
cá a derradeira cri que era,
e por sair de fadiga
confesso-te que o quisera.
Mas se a alma e entendimento
nam morrem com o corpo, a magua
me ficará! Vamonos, que sento
que é tempo do gado ir a agua:
tambem tem tempo o tormento.

_102. Romance de Avalor_

Pela ribeira de um rio
que leva as aguas ao mar
vai o triste de Avalor,
nam sabe se ha de tornar.
As aguas levam seu bem,
ele leva seu pesar.
Só vai e sem companhia,
que os seus fora ele deixar,
que quem nam leva descanso
descansa em só caminhar.
Descontra onde ia a barca
se ia o sol abaixar;
indo-se abaixando o sol
escurecia-se o ar;
tudo se fazia mais triste
quanto havia de ficar.
Da barca levantam remos,
a ao som do remar
começaram os remeiros
dos bancos este cantar:
Que frias eram as aguas!
Quem as haverá de passar?
Dos outros bancos respondem:
Quem as haverá de passar
senam quem a vontade pos
onde a nam pode tirar!
Tras a barca lhe vam os olhos
quanto o dia dá lugar:
nam durou muito, que o bem
nam pode muito durar.
Vendo o sol posto contra ele
soltou os olhos ao chorar,
soltou redeas ao cavalo
da beira do rio andar.
A noite era calada
para mais o maguar,
que ao compasso dos remos
era o seu sospirar.
Querer contar suas maguas
sería areas contar.
Quanto mais se ia alongando,
se ia alongando o soar:
dos seus ouvidos aos olhos
a tristeza foi igualar.
Assi como ia o cavalo
foi pela agua dentro entrar,
e dando um longo sospiro
ouvira longe falar:
Onde maguas levam alma
vam tambem corpo levar.
Mas indo assi por acerto
foi com um barco na agua dar,
que estava amarrado á terra
e seu dono era a folgar.
Saltou assi como ia dentro
e foi a amarra cortar:
a corrente e a maré
acertaram-no a ajudar.
Nam sabem mais que foi dele
nem novas se podem achar,
sospeita-se que era morto
mas nam é para afirmar.
Mais sam as maguas de amor
do que se podem cuidar.

_103. Romance_

Pensando-vos estou, filha,
vossa mãi me está lembrando
enchem-se-me os olhos de agua,
nela vos estou lavando.
Nacestes, filha, entre magua,
para bem inda vos seja,
pois em vosso nacimento
fortuna vos houve enveja.
Morto era o contentamento,
nenhuma alegria ouvistes,
vossa mãi era finada,
nos outros eramos tristes.
Nada em dor, em dor criada,
nam sei onde isto ha de ir ter:
vejo-vos, filha, formosa,
com olhos verdes crecer.
Nam era esta graça vossa
para nacer em desterro:
mal haja a desventura
que pos mais nisto que o erro.
Tinha aqui sua sepultura
vossa mãi e magua a nos;
nam ereis, vos, filha, nam,
para morrerem por vos.
Nam houve em fados razam
nem se consentem rogar:
de vosso pai hei mor dor
que de si se ha de queixar.
Eu vos ouvi a vos só
primeiro que outrem ninguem:
nam foreis vos se eu nam fora,
nam sei se fiz mal ou bem.
Mas nam pode ser, senhora,
para mal nenhum nacerdes
com esse riso gracioso
que tendes sob olhos verdes.
Conforto mais duvidoso
me é este que tomo assi:
Deus vos dé milhor ventura
do que tivestes té aqui!
A dita e a formosura
dizem patranhas antigas
que pelejaram um dia,
sendo d’ antes muito amigas.
Muitos ham que é fantasia,
eu que vi tempos e anos
nenhuma cousa duvido
como ela é azo de danos.
Nem nenhum mal nam é crido,
o bem só é esperado,
e na crença e na esperança
em ambas ha hi cuidado,
em ambas ha hi mudança.

CRISTOVAM FALCAM

[Sidenote: c. 1510-1553?]

_104. Cantiga_

Como dormirão meus olhos,
nam sei como dormirão,
pois que vela o coraçam!

Toda esta noite passada
que eu passei em sentir
nunca a pude dormir
de ser muito acordada;
dos meus olhos foi velada,
mas como nam velarão,
pois que vela o coraçam?

As horas dela cuidei
dormi-las: foram veladas;
pois tam bem as empreguei,
dou-as por bem empregadas:
todas as noites passadas
neste pensamento vão,
pois que vela o coraçam.

Passaros que namorados
pareceis no que cantais,
nam ameis, que se amais
de vos sereis desamados:
em meus olhos agravados
vereis se tenho razam,
pois que vela o coraçam.

_105. Carta de Crisfal preso_

Os presos contam os dias,
mil anos por cada dia;
mas os meus sem alegria
como os contarei eu,
verdadeiro amor meu,
a quem por meu bem conheço?
Pois como preso padeço,
e como a quem vos nam ve,
mal, cuja dor se nam crê,
de prisam e de ausencia,
pois sem pecar penitencia
faço detras de uma grade.
Meus olhos de escuridade
ja nam vem, estam mortais;
mas para que era ver mais
des que vos eles nam viram,
des que de vos se espediram?
Bem se enxerga nos danos
que estou preso ha cinco anos,
afora os que hei de estar
passando em desejar
o tempo que vos nam vejo.
Vede que fe de desejo
em que lugar me acompanha:
nunca se viu fe tamanha,
nem tam mal agradecida!
Nam quis Deus que a minha vida
fosse para mais que isto,
ainda que em vos ter visto
nam naci em vão, senhora,
que a vida é de uma hora,
este bem será eterno;
que, quer esté no inferno,
quer esté no paraiso,
nunca me verão diviso
d’ aqueste tamanho bem.
E nam vos diga ninguem
que o mal que me tendes feito
me faz ter outro respeito,
inda que fora razam;
mas nam quer o coraçam
pelo muito que vos quer:
e sempre isto ha de ser
em quanto eu vivo for.
Que verdade e que amor
para se nam ter em muito!
E quam pouco é o fruto
que dele tenho tirado!
Quem lançasse o meu cuidado
onde o nam visse mais,
pois lembranças tam mortais
traz a minha fantasia
que basta uma de um dia
para me os meus tirar!
Nele vos vi eu chorar,
e nele chorei tambem,
derradeiro do meu bem
e primeiro do meu mal.
Nada, senhora, me val,
nam sei em que me sostenho:
pois que vos escrito tenho,
porque nam vejo resposta?
Quem vos pos no que estais posta?
Que palavras vos disseram
que mais que a razam poderam
que ja entre nos posemos?
Cuidai quanto nos quisemos,
e nam vos possa mudar
dizer que vos podem dar
outrem que tem mais que eu.
Pode ser, nam nego eu;
mas bem vos posso afirmar
que nam podereis achar
outrem que vos tanto queira.
Olhai que á derradeira
riqueza nam tira dor;
pois antre ela e o amor
qual é mais para estimar
deve ser bem de julgar.
Mas conquanto isto digo
mal acabarei comigo,
senhora, que possa ser
mudar-se vosso querer
por nenhuns outros quereres,
esquecendo os prazeres
do nosso tempo passado
que me faz tam esforçado
que em quanto a meu cuidar
a terra me nam gosar,
ninguem gosará de vos
senam meus cuidados sós,
que em vossa contemplaçam
os tempos gastando vam
como se fosseis presente,
como no tempo milhor.
E se isto ante vos for
que me pos a escrever,
querei, senhora, entender
que tinha que dizer mais;
mas lembraram-me os sinais
vossos e olhos formosos,
e os meus de saudosos
lembrando-se que vos viram
com lagrimas me impediram
poder pôr mais por escrito.
Baste o que tenho dito
para haver por galardam
tres regras de vossa mão;
para resposta das quais,
senhora, fique o mais
que aqui escrever devera
se o escrever podera.

FRANCISCO DE SÁ DE MIRANDA

[Sidenote: c. 1490-1558]

_106. Carta a el Rei Nosso Senhor_

Rei de muitos reis,
se uma hora me atrevo
ocupar-vos, mal faria
e ao bem comum nam teria
os respeitos que ter devo.

Que em outras partes da esfera,
em outros ceos diferentes
que Deus té gora escondera,
tanta multidão de gentes
vosso mandado espera.

Que sois vos tal que a eles sós,
justo e poderoso rei,
ou lhe desdais os seus nós
ou cortais, porque entre nos
vos sois nossa viva lei.

Onde ha homens ha cobiça:
cá e lá tudo ela enpeça,
se a santa, se a igual justiça
nam corta ou nam desenpeça
o que a má malicia enliça.

Senhor, que é muito atrevida,
e onde ela nós cegos deu
cortar é cousa devida:
exemplo o jugo de Mida,
que el rei vosso avó fez seu.

Ora eu, respeito havendo
ao tempo mais que ao estilo,
irei fugindo ao que entendo:
farei como os cães do Nilo
que correm e vam bebendo.

A dignidade real
que o mundo a direito tem
(sem ela ter-se-ia mal)
é sagrada, e nam leal
quem limpo ante ela nam vem.

Nam falemos nos tiranos,
falemos nos reis ungidos:
remedeiam nossos danos,
socorrem os afligidos,
cortam polos maos enganos.

As vossas velas que vam
dando quasi ao mundo volta
raramente encontrarão
gente de outro algum rei solta:
sem cabeça o corpo é vão.

Dignidade alta e suprema,
quem ha que a nam reconheça?
Viu-se em Marco Antonio tema
de pôr real diadema
a Cesar sobre a cabeça.

Que o nome de emperador
a qualquer seu capitam
que tenha em armas louvor
dava Roma, e era entam
mais consul, mais ditador.

Um rei ao reino convem:
vemos que alumia o mundo
um sol; um Deus o sostem;
certa a queda e o fim tem
o rei onde ha rei segundo.

Nam ao sabor das orelhas,
arenga estudada e branda,
abastam as razões velhas:
a cabeça os membros manda,
seu rei seguem as abelhas.

A tempo o bom rei perdoa,
a tempo ferro é mezinha:
forças e condição boa
deram ao lião coroa
da sua grei montesinha.

As aves, tamanho bando,
de outra liga e de outra lei,
por vencer todas voando
tomaram a aguia por rei,
que o sol claro atura olhando.

Quanto que sempre guardou
David lealdade e fe
a Saul! quanto o chorou!
Quanta maldição lançou
ás montes de Gilboe!

Onde caira o escudo
do seu rei, inda que imigo,
inda que ja mal sesudo,
saindo de tal perigo
e subindo a mandar tudo.

O Senhor da natureza,
de quem ceo e terra é chea,
vindo a esta nossa baixeza,
do real sangue se preza,
por Rei na cruz se nomea.

Sobre obrigações tamanhas
valem-se contudo os reis
dos rostos falsos, das manhas
com que lhes querem das leis
fazer teas de aranhas.

Que se nam podem fazer
por arte, por força ou graça
salvo o que a justiça quer,
senhor, nam chamam poder
salvo o que lhes val na praça.

E por muito que os reis olhem
vam por fora mil inchaços
que ante vos, senhor, se encolhem,
d’ uns gigantes de cem braços
com que dão e com que tolhem.

Quem graça ante el rei alcança
e hi fala o que nam deve,
mal grande da má privança,
peçonha na fonte lança
de que toda a terra beve.

Quem joga onde engano vai
em vão corre e torna atras,
em vão sobre a face cai:
mal hajam as manhas más
donde tanto engano sai!

Homem de um só parecer,
de um só rosto, uma só fe,
d’ antes quebrar que torcer,
ele tudo pode ser
mas de corte homem nam é.

Gracejar ouço de cá
de quem vai inteiro e são,
nem se contrafaz mais lá:
como esse vem aldeão!
que cortesão tornará!

As santidades da praça,
aqueles rostos tristonhos
com os quais este e aquele caça,
para Deus, senhor, são graça,
para vos tudo são sonhos.

E os discursos que fazemos:
pode ser! pode nam ser!
mais adiante o entenderemos:
agora mortos por ver,
entam todos nos veremos.

Por minas trazem suas azes,
os rostos de tintoreiros;
falsas guerras, falsas pazes:
de fora mansos cordeiros,
de dentro lobos roazes.

Tudo seu remedio tem,
e que é assi bem o sabeis
e o remedio tembem:
querei-los conhecer bem?
No fruto os conhereceis.

Obras, que palavras nam!
Porem, senhor, somos muitos,
e entre tanta multidão
tresmalham-se-vos os frutos,
que nam sabeis cujas são.

Um que por outro se vende
lança a pedra e a mão esconde,
o dano longe se estende:
aquele a quem doi o entende,
com só sospiros responde.

A vida desaparece,
e entretanto geme e jaz
o que caiu; e acontece
que d’ um mal que se lhe faz
outro mor se lhe recrece.

Pena e galardam igual
o mundo a direito tem:
ha uma regra geral
que a pena se deve ao mal
e o galardam ao bem.

Se alguma hora aconteceu
na paz, muito mais na guerra,
que a balança mais pendeu
faz-se engano ás leis da terra,
nunca se faz ás do ceo.

Entre os Lombardos havia
lei escrita e lei usada,
como se sabe hoje em dia,
que onde a prova falecia
que o provasse a espada.

Ali no campo, ás singelas;
enfim morrer ou vencer,
fosse qual quisesse d’ elas:
nam era milhor morrer
a ferro que de cautelas?

Ao nosso alto e excelente
Dom Dinis, rei tam louvado,
tam justo, a Deus tam temente,
falsa e maliciosamente
foi grande aleive assacado.

Ele posto em tal perigo,
reis que fez e desfez,
contra o malicioso imigo
foi-lhe forçoso esta vez
chamar-se a esta lei que digo;

ás vilas e ás cidades,
a quem cumpria de acudir
polas suas lealdades:
tanto são más as verdades
ás vezes de descobrir.

Neste tempo quem mal cai
mal jaz. E dizem que á luz
com o tempo a verdade sai;
entretanto põem na cruz
o justo; o ladrão se vai.

Da mesma casa real
em verdade um grande ifante,
tratado ás escuras mal,
bradava por campo igual
e imigos claros diante;

enfim, vendo a industria e arte
quanto que podem, chamou
um leal conde de parte:
só com ele se apartou,
foi viver a milhor parte,

onde tudo é certo e claro,
onde são sempre umas leis.
Principe no mundo raro!
Sobre tanto desemparo
foram tres seus filhos reis.

Ó senhor, quantos suores
passa o corpo e a alma em vão
em poder d’ envolvedores!
enfim batalhas que são
salvo desafios mores?

Com a mão sobre um ouvido
ouvia Alexandre as partes,
como quem tinha entendido
por fazer certo o fingido
quantas que se buscam de artes.

Guardava ele o outro inteiro
á parte inda nam ouvida;
nam vai nada em ser primeiro:
quem muito sabe duvida,
só Deus é o verdadeiro.

A tudo dão novas cores
com que enleam os sentidos;
Ah maos, ah enliçadores,
ante os reis, vossos senhores,
andais com rostos fingidos.

Contais, gabais, estendeis
serviços e lealdades:
olhai que nam nos daneis!
Falai em tudo verdades
a quem em tudo as deveis.

Senhor, nosso padre Adam
pecou, chamou-o o juiz:
tinha que dizer ou nam
hi sua fraca razam,
porem livremente diz.

Sempre foi, sempre ha de ser
que onde uma só parte fala
que a outra haja de gemer:
se um jogo a todos iguala,
as leis que devem fazer?

Vidas e honras guardais
debaixo de vosso emparo,
d’estranhos, de naturais:
sospiram, nam podem mais,
e ás vezes nam muito claro.

Apos estas, senhor, arde
a cobiça da fazenda,
por mais que se vele e guarde:
tem ela milhor emenda
se nam viesse mal e tarde.

Geralmente é presuntuosa
Espanha e d’ isso se preza,
gente ousada e belicosa:
culpam-na de cobiçosa,
tudo sabe Vossa Alteza.

Pensamentos nunca cheos!
Nam tem fundo aqueles sacos!
Inda mal, porque tem meos
para viver dos mais fracos
e dos suores alheos.

Que eu vejo nos povoados
muitos dos salteadores
com nomes e rostos de honrados
andar quentes e forrados
das peles dos lavradores.

E, senhor, nam me creais
se as nam acho mais finas
que as de lobos cervais,
que arminhos, que zebelinas:
custam menos, cobrem mais.

Ah senhor, que vos direi,
que acuda mais vento ás velas?
Nunca se descuide el rei,
que inda nam é feita a lei
ja lhe são feitas cautelas.

Entam tristes das molheres!
Tristes dos orfãos coitados!
E a pobreza dos mesteres,
que nem falar são ousados
diante os mores poderes!

Os quais, quem os assi quer,
quem os negocea assi,
que fará quando os tiver?
Nossos houveram de ser,
tornaram-nos para si.

Ora ja que as conciencias
o tempo as levou consigo,
venhamos ás penitencias:
senhor, se eu vira castigo
boas são as residencias.

Mas eu vejo ca na aldea
nos enterros abastados
muito padre que passea,
enfim ventre e bolsa chea,
absoltos de seus pecados.

Se se hão de reconciliar
uns com os outros tem seu trato,
basta-lhes só acenar:
nam no fazem tam barato
ao tempo do confessar.

Senhor, esta vossa vara
em quais mãos anda, tal é:
a boa é ave mui rara;
sabei que esta nunca é cara,
que seja muita a mercé.

Livre de toda a cobiça,
a Deus temente e a vos,
sem respeito e sem preguiça,
vara direita sem nós,
se quereis que haja justiça.

Tomai, senhor, o conselho
do bom Gethro ao genro amigo;
é verdade, é evangelho;
como disse aquele velho,
humilmente assi vos digo

que estas leis justinianas,
se nam ha quem as bem reja,
fora de paixões humanas,
são um campo de peleja
com razões fracas e ufanas.

Morre o nobre Conradino
com o parceiro em tudo igual,
cada um de tal morte indino,
pelo pesado ou malino
doutor que interpreta mal.

Diz o texto: o sangue cesse
por batalha e guerra finda;
vem com grosa outro interesse,
diz que ande o cutelo, ainda
que em prisam certa o tivesse.

Mas, senhor, milhor o temos
sendo vos o que mandais:
todos nos revolveremos,
os que tanto nam podemos
e aqueles que podem mais.

Quem por amor se encadea
nam é nome errado ou novo
se por livre se nomea;
nam tem tanto amor de povo
rei em quanto o mar rodea.

Aqui nam vemos soldados,
aqui nam soa tambor:
outros reis os seus estados
guardam de armas rodeados,
vos rodeado de amor.

Achar-nos-hão as divinas
no meo dos corações
entalhadas vossas quinas:
estas são as guarnições
de vos e dos vossos dinas.

Tem na verdade o frances
a seu rei amor acceso,
nam lh’ o nega o portugues;
porem traz guarda escoces,
que nam é de pouco peso.

O Padre Santo assi faz,
a quem certo se devia
alto assossego, alta paz:
mas tem guarda todavia
com que vai seguro e jaz.

Que se pode ir mais avante
com quanto alcança o sentido
sem ferro ou fogo que espante:
com duas canas diante
is amado e is temido.

Uns sobre os outros corremos
a morrer por vos com gosto:
grandes testemunhas temos
com que mãos e com que rosto
por Deus e por vos morremos.

Outrosi para os reveses
(queira Deus que nam releve!)
em vos tem os portugueses
o bom rei dos athenieses,
Codro, que outro algum nam teve.

Do vosso nome um gram rei
neste reino lusitano
se pos esta mesma lei,
que diz o seu pelicano:
Pola lei e pola grei.

Mas eu sou d’ uns guardacabras
que se vão de ponto em ponto:
querem só duas palavras,
que dos gados, que das lavras,
depois nam tem fim nem conto.

Assi que seja aqui fim,
tornem as praticas vivas:
perdestes mea hora em mim
das que chamam socessivas
estes que sabem latim.

_107. A este cantar das moças ao adufe: Naquela serra quero ir a morar, quem me bem quiser lá me irá buscar._

VOLTAS

Nestes povoados
tudo são requestas,
deixai-me os cuidados,
que eu vos deixo as festas!
D’ aquelas florestas
verei longe o mar,
pôr-me-hei a cuidar.

_Responde-lhe outra companheira de outra opinião_:

Sombras e aguas frias,
cantar de aves, bem!
Quando as tardes vem
por ca bradaria!
Ves que pressa os dias
levam sem cansar,
nunca ham de voltar!

A PRIMEIRA

Nam julgue ninguem
nunca outrem por si:
mais d’ um bem que vi
a vida nam tem.
Nam deixa este bem
onde se ele achar
mais que desejar.

A OUTRA

Deixa as vaidades,
que da mão á boca
o sabor se troca,
trocam-se as vontades;
são essas suidades
armadas no ar,
nam podem durar.

A PRIMEIRA

Naquela espessura
me hei de ir esconder:
venha o que vier,
achar-me-hei segura.
Se tal bem nam dura,
ao seu passar
tudo ha de acabar.

_108. Cantiga_

Comigo me desavim
no estremo som do perigo:
nam posso aturar comigo,
nam posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia
antes que esta assi crecesse,
agora ja fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
do vão trabalho que sigo
se trago a mim comigo,
tamanho imigo de mim?

_109. Soneto_

O sol é grande, caem com a calma as aves
do tempo em tal sazão que soe de ser fria:
esta agua que do alto cai acordar-me-ia
do sono nam, mas de cuidados graves.
Ó cousas todas vãs, todas mudáveis!
Qual é o coraçam que em vos confia?
Passando um dia vai, passa outro dia,
incertos todos mais que ao vento as naves!
Eu vi ja por aqui sombras e flores,
vi aguas e vi fontes, vi verdura,
as aves vi cantar todas d’ amores.
Mudo e seco é ja tudo e de mistura;
tambem fazendo-me eu fui de outras cores;
e tudo o mais renova, isto é sem cura.

_110. Á morte de sua molher_

Aquele espirito tam bem pagado,
como ele merecia, claro e puro,
deixou de boa vontade o vale escuro,
de tudo o que cá viu como anojado.
Aquele espirito que do mar irado
d’ esta vida mortal posto em seguro,
da gloria que la tem de herdade e juro
cá nos deixou o caminho abalisado.
Alma aqui vinda nesta nossa idade
de ferro que tornaste a antiga de ouro
em quanto cá regeste a humanidade,
em chegando ajuntaste tal tesouro
que para sempre dure! Ah vaidade!
Ricas areas d’ este Tejo e Douro!

FRANCISCO DE MORAES

[Sidenote: c. 1500-1572]

_111. Cantiga_

Desengano, quem vos quer,
esse vos nam pode achar,
e quem vos nam ha mister
buscai-lo para o matar.
Com meus enganos contente
passei a vida té agora,
viestes vos em tal hora
que ao dobro sou descontente.
Is fugir a quem se quer
convosco desenganar:
eu que vos nam hei mister
quisestes-me vir buscar.
Nam tinha eu a vida em mais
que em quanto vivi de enganos,
desenganos são sinais
de morte ou mores danos.
Quando vos ouve mister
folgastes de me enganar,
quando enganado quis ser
vindes-me desenganar.

FRANCISCO DE SÁ DE MENESES

[Sidenote: 1515?-1584]

_112. O rio Leça_

Ó rio Leça,
como corres manso!
Se eu tiver descanso
em ti se começa.

Sempre sossegados
vam teus movimentos:
nam te alteram ventos
nem tempos mudados.

Corres por areas
e bosques sombrios,
nam te turbam rios
nem fontes alheas.

Naces de um penedo
tosco e descomposto,
a ti mostra o rosto
a manhã mui ledo.

A aurora em nacendo,
quando estás mais liso,
com alegre riso
em ti se está vendo.

Quando o mar nam soa
e passam mil velas,
em ti faz capelas
com que se coroa.

Olmos abraçados
tenhas sempre de hera,
sempre a primavera
alegre teus prados!

Logrem teus salgueiros
mil tempos serenos,
nunca sejam menos
os teus amieiros!

Por ti cantam aves,
sem temerem quedas,
mil cantigas ledas
e versos suaves.

De laços e redes
criam sem receo,
seguras no seo
de teus bosques verdes.

Dem-te as noites sono,
e com larga mão
flores o verão,
frutos o outono!

Sombra no estio
sem nenhuns resguardos,
neves e dias pardos
o inverno frio!

Por ti canta Abril
quanto cuida e sonha,
ora com sanfonha,
ora com rabil.

Quando se levanta,
quando o sol mais arde,
assim canta á tarde,
á noite assim canta.

Para que são, Maio,
tantas alegrias,
pois teus longos dias
passam como raio?

Por muito que tardes
são tardanças vans:
foram-se as manhans,
ir-se-hão as tardes.

Para que te gabas
de teus vãos amores?
Para que são flores
pois tam cedo acabas?

Em espaço breve
chega ao mar o Douro:
os cabelos de ouro
se fazem de neve.

Ó rio Leça,
frutos em Janeiro
nacerão primeiro
que de ti me esqueça!

Primeiro em Agosto
nevará com calma
que o tempo desta alma
aparte teu rosto!

Algum tempo manso
Deus o ordene a mi
em que torne a ti
com algum descanso!

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The Oxford book of Portuguese verseChapter D: Philipa De Lencastre

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